Na Luta Contra o Preconceito - O culto do corpo


O CULTO DO CORPO

Como já foi referido inúmeras vezes, e como é do conhecimento de todos, a Eurovisão tornou-se ao longo dos tempos, uma referência que não alusiva exclusivamente ao seu contexto e qualidade musical. Uma das questões que geram polémica nesta sociedade de século XXI, também se evidencia quando falamos nos intérpretes representantes de cada país: a sua imagem estética.

Hoje em dia, e desde já há algum tempo, está enraizado o culto do corpo. Os “gordos” e os “feios” são mal vistos, discriminados, excluídos, apontados negativamente, nas mais diversas situações. Como profissional ligada à área da alimentação, este é um assunto com o qual lido diariamente, e que (ainda) continua a comover os profissionais de saúde dadas as situações com que nos deparamos. Em torno da obsessão, da vontade e do sacrifício de se querer mudar a sua imagem pessoal, estão envolvidos diversos fatores que põem em risco a saúde física e mental dos indivíduos. A pressão da sociedade ainda tem “muita culpa no cartório” com a conotação e importância que dá ao corpo bonito e visualmente bem referenciado. 

A Eurovisão é mais um exemplo de um espetáculo televisivo em que a componente visual tem um grande impacto. Poderia citar inúmeros exemplos. E poderei começar com os Portugueses, mais recentes: Vânia Fernandes (Portugal 2008) e Daniela Varela (vocalista dos Flor-de Lis – Portugal 2009). Ambas as intérpretes são dotadas de uma capacidade vocal excelente, mas não deixaram de estar na boca dos eurofãs devido à sua maior robustez comparando com os seus colegas da mesma edição. Vânia Fernandes chegou mesmo a ser “gozada” pela televisão sueca. 


Já Hera Björk, representante da Islândia em 2010, é uma cantora soul e pop muito reconhecida no seu país, e no Chile, onde reside atualmente. Nesse ano, Hera foi falada não só pela sua forma física mas também pela sua indumentária, que não favorecia em nada o seu excesso de peso. Também Chiara, representante de Malta, já por três vezes, é um exemplo de que “as aparências iludem”, e para além de carregar o peso, literalmente, carrega um notável poder vocal indescritível. 


Já recentemente, Bojana Stamenov interpretou, este ano, uma canção autobiográfica: “Beauty Neves Lies”, cuja letra descreve: “sou diferente e está tudo bem”. Este é um exemplo da consciência própria de que, não só na Eurovisão, mas no seu dia-a-dia, Bojana sente na pele o facto de ser apontada como sendo diferente, devido à sua notória obesidade. Este é um caso de que, apesar do enraizamento do culto do corpo esbelto, não existe preconceito próprio. 


A tentativa de transparência de algum tipo de discriminação no certame também se evidenciou na questão da idade dos intérpretes. Um exemplo bem recente centra-se no regulamento da França para o ESC 2016, em que só poderão concorrer artistas com idade inferior a 50 anos. É certo que nos últimos anos há uma tendência para maus resultados vindos de intérpretes mais velhos. São exemplos Engelbert Humperdinck e Bonnie Tyler pelo Reino Unido e Lisa Angell pela França. Nesta última, creio que a má pontuação foi uma insistência na sucessão do ano transato. Mas, e nos restantes? Terá sido o problema a idade dos intérpretes ou mesmo a má escolha musical? Pois… Em todo o mundo existem excelentes vozes maduras, como a própria Lisa Angell, que na minha opinião, fez uma exibição vocal excecional! Portanto, eliminar os mais velhos, não me parece ser a solução para todos os problemas, desde que a escolha da canção não seja feita a pensar nos anos 60!


Recuemos a 1986, em que a Bélgica venceu a Eurovisão com Sandra Kim. Na altura Sandra tinha 13 anos. Apesar de não haver uma idade mínima para participar, como acontece hoje em dia, Sandra foi apontada como uma menina que não teria capacidade de ir longe no concurso. O que é certo é que levou o troféu para casa, apesar de, na sua canção (de carácter autobiográfico) ter-se definido com 15 anos, tal como chegou a afirmar aos jornalistas. Isto não teria sido necessário se não tivesse sido tão polémica a questão da sua idade. Esta vitória ainda fez com que o segundo classificado reclamasse a vitória da Bélgica, devido a todo este enredo. A intenção da Suíça seria pedir a desclassificação da vencedora.


Na edição de 2003, as conhecidas mundialmente T.A.T.U. também despertaram a já habitual discriminação por parte dos russos, ao criticar a idade da representante alemã Lou, na altura com 40 anos. E por falar em russos, quem não se lembra das amorosas velhinhas Buranovskiye Babushki? Por ser a Rússia em Baku, pela canção/voz/postura em palco ser péssima, pelo favoritismo da Loreen, era evidente a revolta pelo facto de serem também candidatas ao título. Mas qual o fator mais apontado? A sua terceira idade, claro.  


Este assunto também não foi deixado de lado por uma das mais polémicas intérpretes eurovisivas. Entre linguagem inapropriada na letra da sua canção e discussões com jornalistas, Silvia Night (Islândia 2006) ainda ofendeu Carola (Suécia 1983, 1991 e 2006). Entre outras acusações, Sílvia chamou Carola de “velha”. Carola, que ainda a vimos em 2013 no Melodifestivalen a interpretar o seu sucesso "Främling", está “aí para as curvas” e certamente se representasse uma vez mais a Suécia, com uma boa canção, não faria má figura com certeza.


Já agora, e nesta linha da imagem irreverente transmitida por Silvia Night, podemos lembrar-nos dos Finlandeses Lordi. Os Lordi venceram em 2006 pelo seu estilo alternativo, marcante, ousado, irreverente e diferente de tudo o que tínhamos visto até então no certame. Hoje em dia são uma banda de sucesso mundial e, apesar de nunca terem mostrado a sua face, o impacto da sua imagem continua a ser um dos assuntos mais falados de sempre na história eurovisiva. 


Por fim, não poderia deixar de referir o uso da imagem sexual dos intérpretes em prol de sucesso, polémica e até bons resultados. Recentemente, no regresso da Polónia após uma longa ausência, surgem as “Slavic Girls”, tão admiradas na apresentação de Cleo & Donathan, em 2014. Sem dúvida que a apresentação em palco, os decotes e a beleza foram o foco para o sucesso da canção. E existem tantos outros exemplos… Ucrânia e Grécia dominam as conversas sobre estilo sensual: Helena Paparizou (Grécia 2005), Ani Lorak (Ucrânia 2008), Kalomira (Grécia 2008), Sakis Rouvas (Grécia 2009), Svetlana Loboda (Ucrânia 2009), Eric Saade (Suécia 2011) e Eduard Romanyuta (Moldávia 2015). Por detrás de cada um destes cantores está uma história acerca da exploração da sua imagem durante a eurovisão, ou por fazerem questão de a realçar, ou por serem naturalmente sensuais, ou por criarem uma apresentação em palco que marcasse visualmente os telespectadores. 


Apesar de, em alguns casos a imagem ser utilizada em benefício do espetáculo, infelizmente encontramos muitos comentários negativos de telespetadores acerca da discriminação entre “gordos e feios” ou em relação à idade e, muitas vezes, atribuem uma relação, não lógica, à canção que é defendida. Todos concordamos que as votações não devem ser influenciadas por este aspeto, que não existe muito sentido para que assim seja. Um cantor não deixa de ser bom pelas rugas que transporta, nem uma canção se torna espetacular só porque vem de dentro de um corpo escultural. Quer queiramos quer não, por mais anos que passem, e por mais desenvolvida que a sociedade se vá tornando em relação à discriminação, o conceito físico e jovial e a modelação corporal vão estar sempre lado a lado como referência nos media. 

Nós somos contra a discriminação, e tu?:



Vídeos: Eurovision.tv
13/12/2015

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