[Crónica] ESC 2016: a música polémica '1944', de Jamala


A música polémica "1944", de Jamala 
Proposta ucraniana para o ESC 2016

Desde que "1944" ganhou a final nacional ucraniana, os media internacionais e políticos têm dado destaque (nem sempre por bons argumentos) à importância da letra que Jamala canta. O tema revive o drama da comunidade tártara da Crimeia, em 1944, quando os seus integrantes foram deportados para a Ásia Central, um dos continentes onde foi implementado o comunismo com o governador Mao-Tse Tung, com o apoio de Estaline, após acusações de colaboração com o regime nazista.

O vice primeiro-ministro da República da Crimeia, Ruslán Balbek, reagiu à eleição dos representantes da Ucrânia lamentando que usam o concurso como uma montra política: "As autoridades ucranianas tentam tirar vantagem da canção da Jamala para fins políticos, explorando a tragédia dos tártaros da Crimeia para impôr ao público europeu uma imagem sofrida, de suposta perseguição contra os membros dessa comunidade na Crimeia Russa".

Além deste suposto aproveitamento politico ucraniano, com o objectivo de se fazer ouvir contra as supostas injustiças que foram feitas aos membros da comunidade tártara, existem inúmeros media internacionais que consideram que "1944" viola as regras da Eurovisão, por conter na letra mensagens políticas claras - aliás, chegam mesmo a comparar "1944" a "We Don't Put In", música da Geórgia desclassificada em 2009.

De facto, a Eurovisão não é um concurso político, mas sim musical. Porém, através da música, pode-se sempre ser intervencionista - seja de forma mais discreta como milhares de artistas que passaram pelo palco eurovisivo, seja de forma mais expansionista.

Porém, a problemática é maior. Apesar de se ler na letra "Quando os estranhos estão a caminho… eles vêm à tua casa, eles matam-vos a todos e dizem 'nós não somos culpados, não somos culpados'", Jamala refere que a letra não é um ataque político, mas sim um "relembrar da história". Muitos consideram que a letra está cheia de ódio e de ressentimentos, o que até poderá ser verdade - porém Jamala tenta passar o testemunho da sua família de uma forma séria e clara. O seu objectivo não é atacar nenhum poder político atual, mas sim relembrar e consciencializar as massas das atrocidades que foram feitas na história mundial: "Quando sabemos, evitamos que volte a acontecer".

Se as coisas forem feitas de uma visão histórica, a música poderá ser aceite na Eurovisão. Relembrar os Descobrimentos através das imensas músicas portuguesas que foram levadas à Eurovisão [que também, no século XV, foi uma decisão política clara], ou relembrar um caso específico atroz do passado, neste caso de 1944, é destacar a importância da história, e não tanto da política - mesmo que seja de louvor ou de crítica.

É um assunto delicado, e veremos o que a EBU poderá dizer até ao dia 14 de março... No entanto, não se pode negar que Jamala consciencializa massas e conta a sua verdade, mesmo que custe a muitos ouvi-la. Quanto a nós, aprovamos a sua participação, bem como de outros artistas que tentam passar uma mensagem de paz na Eurovisão.

Relembramos, por fim, que a Eurovisão não é apenas um simples concurso musical. Devido à sua importância, destaque e pelo facto de ser levado a todo o mundo, mais que permitir, o concurso deve expor mensagens substanciais, mostrar a história dos países, porque é disso que o concurso trata, mostrar a cultura e identidade dos países. A identidade dos países construiu-se com base na sua história. Não há aqui, portanto, a nosso ver, qualquer mensagem de ódio em "1944". É fulcral relatar estas barbaridades e atrocidades cometidas contra os povos, outrora, porque vendo os erros do passado se constrói o futuro. Um futuro com paz, harmonia e união, que é o lema da Eurovisão, somos um só.

Oiça a música e veja a atuação:


Vídeo: Eurovision Ukraine
25/02/2016

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