[CRÓNICA]: 'As letras das músicas eurovisivas marcam a nossa própria história!'



Canções eurovisivas, letras marcantes...

As músicas marcam a nossa própria história, ficando sempre nas nossas memórias as coreografias, gestos e o poder vocal dos seus intérpretes… Mas não só! Tantas são as vezes em que nos emocionamos com algumas letras, e muitas mais são as vezes em que satirizamos tantas outras. Com tanto glamour, e aposta estética, a Eurovisão tonou-se num evento de massas, com uma forte predisposição para alguma simplicidade de conteúdo, especialmente no que toca à letra. A maioria das composições é cantada em inglês, com rimas simples, para que todos possamos compreender com relativa facilidade a mensagem da música – geralmente a palavra “love” (“amor”) é presença assídua em letras eurovisivas, mas nem sempre está em concordância com o clima vivido nos bastidores.

No entanto, não só de futilidades sobrevivem estas letras, e por vezes somos surpreendidos/as com referências culturais, históricas e políticas. Embora algumas possam causar polémica, em especial as de cariz político, até porque são contra as regras da EBU, tal não significa que não tenham importância no contexto do evento. Não é a primeira vez que frisamos a importância da Eurovisão na passagem de mensagens, umas mais relevantes do que outras, e também a sua função enquanto indicador do estado da Europa, nas mais diferentes vertentes – desde as tendências musicais, passando pelas alianças entre países, até a própria evolução no que toca a direitos sociais. Deste modo, dedicamos este especial à riqueza escondida (ou não) nos versos que têm ecoado nos nossos ouvidos ao longo de várias décadas, apresentando-vos cinco referências relevantes em letras eurovisivas.

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Começamos com uma vencedora, polémica como não poderia deixar de ser, que sendo uma Diva, não negligenciou outras figuras de relevo no que toca à feminilidade. Claro que estamos a falar de israelita Dana International, que em 1998 arrecadou a vitória Eurovisiva com o seu tema “Diva”. Esta música, com o seu orelhudo refrão, funciona como uma ode ao poder da Mulher ao longo da história: ‘Viva nari'a/ Viva Victoria/ Aphrodita/ Viva la Diva/ Viva Victoria/ Cleopatra’. Das personagens realçadas neste refrão, a única real é Cleópatra, figura de relevo do Antigo Egipto, que funciona como ícone feminino na história, pelo seu poder e beleza. Vitória, tal como o próprio nome pode sugerir, remete para a deusa romana da vitória e Afrodite é a deusa grega da beleza. Numa só passagem musical temos referências históricas e mitológicas, com raízes gregas, romanas e egípcias – quem não haveria de gostar destas misturas era a Cleópatra, que acabou por se suicidar (supostamente) após uma derrota com o império romano, mas isso já são águas passadas. Viva la Dana, e o seu requinte no que toca a homenagear o poder feminino!

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Passando de uma vencedora icónica para outra vitória histórica, talvez a mais mediática de sempre, temos, como não poderia deixar de ser, os ABBA com o seu “Waterloo” – presença assídua em tops eurovisivos, com todo o mérito. Esta letra fala de uma rapariga que está a render-se ao amor, tal como Napoleão se rendeu na Batalha de Waterloo, em 1815. Embora tenhamos como fundo o tema “amor”, esta letra, até pelo seu título, enfoca um acontecimento histórico de relevo, o qual marcou o fim do Império de Napoleão. Curiosamente, e embora se tenha consolidado a ideia de que esta batalha ocorreu em Waterloo, na verdade esta teve lugar em Braine-l'Alleud et Plancenoit – nome que não assentaria tão bem na letra dos ABBA, verdade se diga. Mais ainda, é desconhecido se alguma vez o antigo Imperador francês esteve sequer em Waterloo, região belga; no entanto, tal não impediu os ABBA de utilizar este evento histórico como metáfora para uma rendição de amor, tendo provocado a rendição da Europa ao seu talento. Deste modo, com uma letra que assinala o fim de um império, os ABBA iniciaram o seu próprio império no mundo da música que ainda perdura após o fim da banda. 


1944, um número, que representa um ano, e que carrega bastante história. Este é o título de um tema Eurovisivo que arrecadou o primeiro lugar em 2016, tendo como intérprete Jamala, qua já havia tentado representar a Ucrânia em 2011 com o tema “Smile“ – a persistência é mesmo a palavra-chave nas lides eurovisivas. Em primeiro lugar, é necessário frisar que a ascendência de Jamala remonta à Crimeia, tendo esta interpretado o tema parcialmente em inglês e na sua língua nativa. Neste seguimento, o que mais importa abordar neste momento são as inúmeras referências do tema ao ano de 1944, não sendo por acaso a escolha deste ano. 1944 ficou marcado pela deportação de Tártaros da sua terra natal (Crimeia) por parte do exército russo, momento marcante na história desta região ucraniana. Num tema dramático, a intérprete aborda as consequências da guerra, assim como as juventudes perdidas, num discurso íntimo, na primeira pessoa, que nos transporta, não só ao passado, como a um presente vivido na Crimeia. A mensagem é notoriamente política, e embora possa não ser uma mensagem positiva ou festiva, não deixa de ser uma importante referência história que engloba o passado e o presente em torno de um ano - 1944. 



Após este apanhado de marcantes vencedoras eurovisivas, passamos para uma letra lusa, repleta de história e viagens – “Conquistador” dos Da Vinci. O nome desta icónica banda, que nos representou em 1989, já nos transporta para o mundo das artes, mas o foco deste texto são as letras, e esta, além de nos transportar por locais explorados em plena época dos Descobrimentos, tem como título o “Conquistador”. Este termo faz todo o sentido, dadas as nossas aventuras marítimas, que permitiram a expansão da cultura lusa além-fronteiras, mas torna-se ainda mais marcante quando recordamos o cognome do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, o “Conquistador”. Esta não foi a única vez que os intérpretes lusos levaram o tema dos Descobrimentos aos palcos eurovisivos, basta relembrar o tema de Lúcia Moniz em 1996: ‘Andamos todos a rodar na roda antiga/ Cantando nesta língua que é de mel e de sal/ O que está longe fica perto nas cantigas/ Que fazem uma festa tricontinental’. A festa, neste caso Europeia, foi tal que Lúcia arrecadou a melhor qualificação lusa de sempre na Eurovisão, com um honroso 6º lugar, que a cada ano que passa sabe menos a mel e mais a sal.

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Já falámos de temas vencedores, de diferentes décadas e com diferentes referências históricas e culturais, e até já homenageamos as letras portuguesas, com as suas frequentes referências à época dos Descobrimentos. O que falta? Um tema cómico, parco em qualidade, que na sua sátira arrasa com nomes reconhecidos do seu país, estamos a falar de Rodolfo Chikilicuatre, representante espanhol em 2008, ano em que Vânia Fernandes merecia ter arrecadado a primeira vitória lusa na Eurovisão – mas isso são outras conversas. Na letra original desta sátira espanhola são mencionados diversos nomes, tais como Zapatero, político espanhol que, na altura, presidia o governo espanhol. Quem também não escapou foi Mariano Rajoy, também político e atual presidente do governo espanhol após 10 meses de impasse político. Outra referência histórica deste tema espanhol remete para a célebre questão “Por qué no te callas?”, frase proferida por Juan Carlos, na altura rei de Espanha, direcionada para o, então, Presidente venezuelano Hugo Chávez. Numa só música, Rodolfo conseguiu resumir o clima político vivido em Espanha, envergonhando o seu país com uma embaraçosa dança e uma péssima interpretação vocal. Para a história fica a comédia.

Este é apenas um pequeno apanhado de letras eurovisivas com referências relevantes, mesmo quando a música não o é assim tanto. Política, história e cultura, qualquer tema pode ser mote para uma letra eurovisiva, mas nem todas são marcantes, até porque, muitas das vezes, o ritmo acaba por ser mais aliciante do que qualquer verso. O “love” continua a prevalecer na maioria dos temas, e embora sejamos pacifistas, não deixamos de salientar a importância de temas como o “1944” de Jamala, onde a guerra é o mote para uma poderosa interpretação. Na Eurovisão há espaço para tudo, desde o mais simples verso, até a mais arrojada referência histórica. Frisamos a importância de que seja mantido o respeito pelas mais diferentes culturas, nunca esquecendo que “a cantiga é uma arma”, e deve ser usada para promover a mudança positiva, não o conflito ou o preconceito. 

Imagens: sbs.com.au, eurovision.tv e RTVE.es/Vídeos: Eurovision Song Contest e Festivais da Canção
12/11/2016

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