[CRÓNICA]: 'De onde vem e até onde irá o domínio sueco no ESC?'


Começo este texto pela constatação do óbvio: há muitas pessoas que vão discordar de mim e eu vivo bem com isso. Tenho-me habituado ao longo dos anos a ter opiniões diferentes da maioria dos eurofãs e ainda bem porque se pensássemos todos de igual forma isto não tinha piada nenhuma. O que também não tem piada nenhuma é a quantidade de música made in Sweden que temos visto na Eurovisão nos últimos anos. É precisamente disso que vos venho falar e, como não quero que me chamem hater, acho lógico aprensentar-vos um conjunto de estatísticas que até a mim me surpreenderam.

Atualmente parece que apenas os suecos sabem fazer música eurovisiva e, quem a faz melhor é o Thomas G:son. Este tema ocorreu-me depois da desilusão enorme que o Chipre me proporcionou. Eram rumores atrás de rumores de que o Loucas Yiorkas podia estar de volta para representar o seu país e depois o que aconteceu foi o mesmo do ano passado: escolhe-se um finalista da final nacional de 2015 e o G:son que componha uma coisa qualquer. O Chipre descartou então uma presença eurovisiva que iria certamente fazer transparecer a sua cultura musical em prol de mais uma música mainstream. Não me entendam mal, "Alter Ego" era uma das minhas canções preferidas deste ano, mas assusta-me que tenhamos chegado a este ponto em que qualquer país escolhe um sueco qualquer para compor as suas músicas. Até entenderia isso no caso de São Marino, mas não se entende em mais casos. Atenção, não sou de todo contra o facto de compositores tentarem representar outros países que não o seu, mas têm de ser todos suecos?

Mas não quero estar aqui a argumentar sem primeiro vos apresentar número concretos. Olhando para os últimos 10 anos eurovisivos, este é o número total de músicas compostas ou produzidas por suecos (as músicas suecas também foram contabilizadas):

Em percentagem, os números de cima traduzem da seguinte forma:


Ou seja, só este ano tivemos 11 músicas com "dedo" sueco, o que perfaz mais de um quarto do total de músicas em competição. Se isto é normal, já não sei o que é anormal. Mas o mais interessante é olhar criticamente para as músicas de que se fala. Vejamos este ano:

Moldávia (Falling Stars) - De um modo geral mal aceite pelos fãs e não chegou à final;
Croácia (Lighthouse) - Preferida muitos; flop na final;
Chipre (Alter Ego) - Preferida muitos; flop na final;
Azerbaijão (Miracle) - Restos do Melodifestivalen cuja presença na final foi contestada por muitos;
Malra (Walk On Water) - Música básica, atuação básica e que muitos também contestaram na final;
Noruega (Icebreaker) - Um dos maiores flops noruegueses no ESC;
Lituânia (I've Been Waiting For This Night) - Ainda hoje ninguém sabe como é que chegou ao top 10;
Bulgária (If Love Was a Crime) - Melhor lugar de sempre do país;
Rússia (You Are The Only One) - Favorita de muitos;
Suécia (If I Were Sorry) - Uma das vitórias mais contestadas do Melodifestivalen;
Geórgia (Midnight Gold) - Uma das mais odiadas pela generalidade dos eurofãs.

Conclusão: as músicas suecas não são sinónimo de sucesso, longe disso aliás e, no geral, são mais do mesmo. É por isso mesmo que o Melodifestivalen é igual ano após ano (força lá nas críticas). Se a final nacional sueca é a melhor a nível de produção? Sim, nem há discussão possível. Se é a melhor a nível musical? Deixem-me rir. Sanremo, Eesti Laul e UMK estão a milhas de distância e a razão é simples: VARIEDADE! As músicas do Melodifestivalen são todas iguais umas às outras (à excepção de uma ou outra que aparece todos os anos, mas estou a falar uma forma geral). Se temos rock, é o rock mais pop que existe. Se temos uma balada, é a balada mais pop que se possa imaginar. Como é que é a música tradicional sueca? Ninguém sabe. E ninguém sabe porque eles são uns génios do eurotrash e nós veneramo-los por isso. Todos os anos temos uma Loreen wannabe, umas quantas raparigas a dançar, uns quantos rapazes a dançar e é isto. E muitos eurofãs passam 6 sábados a ver mais do mesmo enquanto outras finais nacionais cheias de músicas que fogem a este género dão à mesma hora.

E ninguém é capaz de me convencer que a única razão pela qual Malta, Azerbaijão e Geórgia passaram à final foi por serem compostas por suecos. Malta, com a música mais básica do mundo, uma péssima atuação e prestação vocal consegue a final na semifinal mais difícil? Deixem-me rir. O mesmo para o Azerbaijão com o facto de Samra não estar sequer a cantar. E a Geórgia, ainda que na semifinal mais fácil, consegue apurar-se com uma das músicas mais odiadas deste ano? Sim, claro. Chamem-lhe teorias da conspiração, mas ninguém me convence que os votos eurovisivos são isentos da parte dos júris e são exatamente aqueles que vemos da parte do público. Manipular votos eurovisivos é demasiado fácil (caso contrário expliquem-me a vitória azeri de 2011).

Mas olhemos novamente para este ano. Enquanto músicas do mais básico possível foram à final, outras de géneros totalmente diferentes ficaram na semifinal. Porque é isso que acontece na eurovisão: um concurso que devia ser sobre cultura premeia o mainstream. Quem envia uma coisa diferente arrisca-se a ficar em último (sim, ainda estou chateada com a Estónia). Pelo menos São Marino era diferente. Aliás, atrevo-me a dizer que se São Marino apostasse no G:son estava na final num abrir e piscar de olhos. Fica a dica. 

Para terminar queria falar-vos do Azerbaijão. O que é que o Azerbaijão acrescentou à Eurovisão desde 2008? Eu respondo: nada. Nada porque em nove participações, apenas uma não é da responsabilidade de suecos. É ridículo, mas verdade. Apenas no seu ano de estreia o Azerbaijão enviou uma canção da autoria de azeris.

Deixo-vos então como umas questões: estaremos nós a tornar a Eurovisão num festival sueco? Serão os suecos os únicos capazes de produzir música eurovisiva? Ou somos nós, os fãs, os culpados de tudo isto por metermos a Suécia num patamar muito acima dos restantes países?

Fonte: Eurovision.tv
03/12/2016

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