[ESPECIAL] 1070 palavras que explicam porque é que vale a pena ir ver o Salvador Sobral ao vivo


Isto não é uma notícia. Não há fotos, vídeos nem sequer vos posso dizer ao certo o nome de todas as músicas que o Salvador cantou neste concerto. A razão é simples: havia demasiada música para que se pudesse pensar noutra coisa (a falta de qualidade da câmara do meu telemóvel e a minha falta de capacidade de decorar nomes de músicas nada têm a ver com isto).

Não tinha planeado escrever este texto da mesma forma que não tinha planeado gostar tanto do concerto desta segunda-feira. Antes de começar há duas coisas que devem saber sobre mim: não sou apaixonada por "Amar pelos dois". Sim, eu sei que faço parte de uma pequena parte dos eurofãs portugueses que não amam a música, mas a verdade é que nunca aconteceu. Desde que anunciaram os nomes dos intérpretes, o Salvador não me chamou a atenção já que só o conhecia por ser irmão da Luísa. Só no sábado antes da semifinal, quando ouvi dizer que a música era muito boa, é que comecei a criar expetativas. Entre tantas baladas não consegui ver a magia que me tinha sido prometida. Durante a semana dei-lhe uma nova oportunidade por causa de todo o alarido criado à sua volta. Nada. Reconheço-lhe a qualidade, a justiça da vitória e gosto da música, mas é isso. O que sempre me chamou a atenção foi a interpretação do Salvador, mas a única razão pela qual fui a este concerto foram as outras músicas dele que ouvi depois de ver uma entrevista dele (obrigada Rita) em que percebi que tínhamos uma referência musical em comum: o Jamie Cullum. A segunda coisa que me parece relevante para este texto é o facto de eu ser incapaz de dizer bem do trabalho de alguém se não o achar realmente bom. Já conheci várias pessoas ligadas ao Festival e tentei sempre tratá-las da mesma forma, mas de vez em quando há uma pessoa realmente talentosa que tem de ouvir o meu elogio (não que sirva de muito).

Eu gosto muito de música. Até aqui nada de novo porque toda a gente gosta de música. O meu problema enquanto eurofã é gostar muito mais de música do que do espetáculo e a Eurovisão é, essencialmente, um espetáculo televisivo. Talvez por isto os meus preferidos terem geralmente apresentações bastante simples e nunca ganharem. O Salvador é música. Não é o melhor cantor do mundo nem nos impressiona com os seus agudos fenomenais, mas respira música. Um concerto do Salvador é uma lufada de ar fresco numa indústria repleta de acessórios.

Piano, contrabaixo, bateria e voz chegaram para fazer com que a sala esgotada se rendesse ao talento do nosso representante em Kiev (à exceção do senhor que estava ao meu lado que abriu a boca mais vezes naquela hora e meia do que eu num dia inteiro em que me levanto às 7 da manhã). Escusado será dizer que eu levava as música ensaiadas e assim que começou "Excuse Me" (a minha preferida) eu comecei a cantar e o senhor ao meu lado olhou para mim como que a pensar "então mas há pessoas que conhecem músicas dele sem ser a do Festival?". Há. E a primeira frase dessa música ("excuse me if I bore you when I talk about the things I like to do) reflete bem a forma como eu vejo o género musical do Salvador. Ser artista pop ou rock é fácil porque o público para esses géneros é bastante abrangente. O jazz é um mundo à parte e é difícil gostar do estilo. Eu própria não gostava até há dois anos e quem me fez passar a gostar foi, adivinhem lá, o Jamie Cullum.

"So after the journey to find my own voice, I learned that the secret is just to enjoy" é um verso de "Something Real" e que eu não estou aqui a citar à toa. Já disse que o Salvador não é o melhor cantor do mundo mas tem uma coisa mais rara que a voz: a interpretação. Cantar todos cantamos, o que distingue um artista de um cantor é a forma como ele nos passa a mensagem. Não preciso de dizer mais nada, pois não?

Entre músicas do álbum e novas músicas em português, lá chegou a desejada "Amar pelos dois" cantada por todos os que estavam na sala (menos pelo senhor que estava ao meu lado). Quando é que foi a última vez que uma música representante do nosso país na Eurovisão foi cantada numa qualquer sala deste país por todos quantos estavam no público? Não sei porque certamente não era nascida na altura. Enquanto eurofã é uma sensação incrível. Sentir que não enviamos uma música feita às três pancadas só para se enquadrar naquilo que é espectável. Sentir que enviamos um Artista com A grande.

Entre as muitas piadas já caraterísticas, houve também tempo para o Salvador nos pedir que esquecêssemos o telemóvel, parássemos com os flashes e apreciássemos a música. No final tivemos direito um cover de "High and Dry" dos Radiohead com o Salvador ao piano, mas numa versão aproximada daquela que foi feita pelo Jamie Cullum (já vos convenci a irem ouvi-lo?) e para "After you've gone" que ainda me está na cabeça. 

Durante o concerto o nosso representante disse estar rico com isto da Eurovisão e que no final ia distribuir dinheiro por todos nós (já há uma "notícia" sobre isso porque, ao que parece, uma piada hoje em dia dá para fazer notícia). Se calhar é por ter ficado no último lugar da fila, mas já não havia dinheiro para mim (o que prova que, infelizmente, ninguém me pagou para escrever isto). E a fila era longa. Dezenas de pessoas que quiseram um autógrafo e uma foto com o Salvador. No final lá fui eu, sem cd nem tão pouco um papel que ele pudesse assinar, mas com o telemóvel pronto para captar o momento em que conheci aquele que espero vir a tornar-se o dono da nossa melhor classificação de sempre. Era perto de meia-noite e meia e ele já tinha falado com dezenas de pessoas mas ainda assim, ouviu um conselho meu (que não me foi pedido), disse-me que eu tinha razão e riu-se quando lhe disse que também só gostava da Itália. Desejei-lhe boa sorte para Kiev e saí de lá com a certeza de que voltava a pagar o bilhete para o ir ver. 

Imagem: Facebook Salvador Sobral

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