Crónica ESC 2017: "O Salvador uniu Portugal em torno da Eurovisão"




Esta podia ser uma crónica como tantas outras que eu já escrevi para o Crónicas de Eurofestivais, e em específico sobre toda a realização que aconteceu durante os certames passados relativos ao Festival Eurovisão da Canção 2017. Possivelmente, tudo o que escrevo aqui vem do coração e pouco ou nada estou preocupado com todas as vozes críticas que andam por cá e pelo estrangeiro. 

Nunca pensei que Portugal conseguisse vencer a Eurovisão, é verdade. Também é verdade que eu trabalho todos os dias para fazer renascer a chama eurovisiva - o que só por si só acaba por ser um contrasenso. No meu íntimo sempre acreditei que Portugal era pequeníssimo demais para receber algo de tão envergadura - mesmo que já tenhamos dado provas a toda a gente que, quando nos empenhamos, somos os melhores do mundo.

Este foi um ano ímpar. Pela primeira vez, a minha família juntou-se na sala de estar para assistir em conjunto a este evento. Isto nunca me tinha acontecido na totalidade. Mesmo que o Salvador não tivesse ganho, já ficaria feliz com os efeitos que ele provocou. Nós acreditámos, nós apoiámos, nós nunca desistimos e nós estávamos do seu lado, caso triunfasse ou não.


Sendo agora mais preciso, e dedicando estes próximos parágrafos à própria realização deste ano, sejamos sinceros... foi um dos mais fracos dos últimos anos. Quando me recordo do fantástico ano de 2014, dos imensos e fantásticos planos de câmaras, dos fundos de ecrã, e perceber aquilo que foi feito em 2017, três anos depois... o meu corpo fica gelado. O objetivo devia ser sempre superar aquilo que foi feito no passado, mas neste caso houve um retrocesso gigante. Maior parte das atuações ficaram bastante desvalorizadas quando apresentadas em palco, e notou-se algum desleixo em não criar fundos de palco inovadores para algumas músicas - preferiu-se, sim, utilizar imagens dos videoclipes das canções participantes. Penso que a única atuação que resultou com as imagens dos vídeos oficiais foi a da Macedónia, e mesmo assim nem à final.

Já a abertura das semifinais e da final, bem como os interval acts deixaram bastante a desejar. E já nem falo na maior pouca vergonha que foi o comediante com a bandeira da australiana a mostrar o seu traseiro - mesmo sendo provocação ou não, foi de muito mau gosto, a Eurovisão não serve para estas badalhoquices, que tristeza. 

A única coisa boa que eu tiro daqui foi arrepiante versão que uma das últimas melhores vencedoras de sempre, Jamala, fez com "1944". Poderia trazer esta nova versão e ganhar o festival, que eu não me importava nada - caso isso fosse permitido, claro.

Para colmatar tantas falhas, notou-se que os apresentadores tentaram elevar ao máximo o certame e criar interação com os participantes. Nunca vou esquecer a permissão deles em deixar o moço pedir em casamento à cantora da Macedónia - uma das melhores recordações que eu tiro deste ano. 



Em relação às semifinais, aos apurados e não-apurados, continuo sem entender a passagem da Finlândia. Não é que esta seja uma das minhas canções favoritas, porque de facto está longe de ser, mas é de uma extrema qualidade e seria um crime ficar retida na semifinal. Neste caso, foi mesmo crime. Da segunda semifinal a que mais me custou foi mesmo a da Estónia, que, também não adorando e ter entendido a sua não-passagem, custa sempre por ser uma música orelhuda e com bastante elegância. 

E quando se compara esta última a uma Austrália, mesmo que não estivessem na mesma semifinal, uma pessoa fica KO. Como é que é possível o australiano ter passado à final depois do estardalhaço vocal que fez ao vivo? Além disso, aquela passadeira serviu mesmo para quê? Se fosse Portugal a levar aquilo, ficava em último na semifinal - mas como é a Austrália, é claro que tem de passar e ficar até no top 10. Se a Austrália veio para participar e ficar no top 10 mesmo com uma canção má, pode muito bem nunca mais voltar.


A final foi completamente asfixiante. Este ano eu fui da equipa do tradicionalismo, do multiculturalismo, da importância das línguas nativas para se criar diversidade - o slogan deste ano era mesmo esse, aliás, e eu quis segui-lo à regra - e ao esforço que muitos artistas depositaram em palco. 

Foi completamente fantástica a intensidade que o húngaro deu à sua atuação (se não fosse o Salvador Sobral a ganhar, queria que fosse a Hungria, sem sombra de dúvidas), à alegria da dupla da Bielorrússia, ao arraso que foi a cantora vinda da Arménia, à inteligência lírica da canção italiana, aos alcances vocais que os artistas da Bulgária, da Polónia e da Dinamarca conseguiram - mesmo que estes últimos 3 já estejam a roçar a música comercial. Ah, e sem nunca esquecer o fantástico trabalho da delegação britânica, que conseguiu transformar uma música mediano em algo... vindo de outro mundo. 








Na altura das votações... todo eu tremia. Eu não estava a acreditar que Portugal estava a receber tantos 12 pontos. Como é que isto era possível? Um país que já não ia à final desde 2010! Um país que já tinha perdido a esperança neste concurso! Não quis deitar os foguetes antes da festa, mas Portugal sempre se manteve em 1º lugar nas votações e cada vez mais acreditava nisto: Portugal venceu o concurso - algo que nunca tinha acontecido na nossa história e na história da Eurovisão.

E notou-se claramente que o Salvador Sobral deu uma chapada de luva branca a todos os artistas que pensam que, por levarem música mais comercial, conseguem ter melhor classificação no concurso. Cada artista tem que seguir o que realmente quer e não o estilo musical que o impingem. Isso é que não faz sentido, de todo. Além disso, nota-se perfeitamente que a Eurovisão está a mudar - há 4 anos nunca imaginaríamos a Moldávia, Portugal e Bulgária no top 5, é incrível. Ainda há países que continuam a ter muitíssimo bons resultados, como Suécia e Austrália, mas o concurso está a caminhar no bom sentido. A EBU percebeu que mensagens políticas, comerciais e demasiados dinheiros envolvidos estavam a estragar aquilo que o concurso foi realmente feito... para a música. Por isso, também foi uma chapada de luva branca a todos, e esperemos que o próximo ano tenha músicas com mais qualidade e conteúdo.

A única coisa que me deixou triste, mesmo que o Salvador Sobral tenha sido o meu favorito este ano, foi a sua atitude quando recebeu o prémio e criticou as músicas fast food que estavam a concurso indirectamente. "Celebra a diversidade" era o tema deste ano, e já estamos numa fase, na Europa, em que cada um tem direito a gostar do que quer que seja, e fica de mau tom quando alguém afirma "a música não é fogo de artifício" ou "a música de hoje é fast food". Mesmo que tenha razão, cada um tem a sua própria verdade e devemos respeitar os gostos de cada um. Não devemos minimizar ninguém em detrimento da nossa própria auto-valorização. Não foi, de facto, uma boa mensagem para terminar o evento deste ano. E o facto de ter dito que se estava a "prostituir" (as palavras não são minhas, são mesmo do Salvador)... fica mal, fica deselegante, não precisava de dizer quando o momento é de festejo.


E agora é só esperar pelo próximo ano. Vai ser um ano de muito trabalho, mas quem corre por gosto não cansa, não é verdade? Até lá vamos tentar descobrir qual deverá ser o local indicado para o ESC (só consigo ver o Meo Arena) e os apresentadores escolhidos. Apenas sei que assistir ao vivo e a cores à chegada do vencedor da Eurovisão 2017 a Portugal, no dia 14 de maio, encheu o meu peito de orgulho. Afinal, a Eurovisão está bem viva em Portugal!

Acima de tudo, quero destacar aquilo que disse após a vitória de Salvador no meu Facebook pessoal: ao longo destes últimos anos poucos compreenderam o facto de eu gostar tanto da Eurovisão. No entanto, foi a partir deste concurso que eu conheci pessoas fantásticas que gostavam tanto quanto eu de um concurso que unisse países através da música. Com a Eurovisão, fiz uma segunda família, a equipa Crónicas de Eurofestivais. Além de sermos colegas, somos amigos uns dos outros - e penso que o que realmente importante é mesmo isso. Além de Salvador nos ter unido ainda mais, uniu o mundo inteiro. A música venceu hoje! E Portugal quebrou muitos dos recordes até então alcançados. Demorou imensas décadas, mas conseguimos!

Assim sendo, parabéns a todas as equipas e media portugueses e internacionais por terem ajudado a que se criasse esta mudança para Portugal. Sem o esforço diário de todos, nada disto seria possível. Foi uma vitória para a equipa Crónicas de Eurofestivais, para os media em geral, para Salvador Sobral... mas, acima de tudo, para Portugal! 

Orgulho em ser português!



Imagens: Esctoday, Metro e Eurovision/Vídeos: Crónicas de Eurofestivais e Eurovision Song Contest




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