Crónica ESC 2017: "Portugal venceu na pior Eurovisão da década"


Lembro-me de, em 2016, dizer na minha crónica que, uma semana depois do Festival Eurovisão da Canção 2016 ter acabado, me apercebi de que tolerei todas as músicas nesse ano não porque eram todas boas mas sim porque eram todas más e eu me contentava com pouco. Nunca pensei que essa situação pudesse mudar de figura ao ponto de eu continuar a tolerar tudo mas simplesmente não conseguir adorar nada. Quando digo adorar refiro-me a gostar tanto de uma música ao ponto de votar 10 vezes, de ter no topo de todas as minhas playlists, ouvir tantas vezes seguidas ao ponto de enjoar dela e fazer com que todos os que me rodeiam enjoem dela também. Iam saindo as músicas, uma por uma, e eu só pensava: “ah, ainda faltam bastantes, a minha grande favorita ainda vai aparecer”. Eis que chegámos ao fim de março e eu obriguei-me a escolher as minhas favoritas porque parecia errado não o fazer e porque eu, de facto, me contento com pouco.

Assisto à Eurovisão há mais de dez anos. Este foi o ano em que senti que estava menos ansiosa pelo festival, e foi o musicalmente mais fraco, sem discussão possível. Tanto que a Eurovisão terminou e eu nem tive um único sintoma de post Eurovision depression, e não, não foi por Portugal ter ganho, até porque graças a isso tornou-se verdadeiramente deprimente a quantidade de disparates que se ouve nos noticiários dos canais generalistas, disparates que incluem a afirmação de que a canção de Salvador era a única cantada na língua materna. Maiores disparates lêem-se pelas redes sociais, como é costume, vindos de novos fãs eruditos do festival, saídos sabe-se lá de onde, que começaram a ver a Eurovisão a semana passada e de repente parecem ter todo um doutoramento sobre o mesmo. 


Ainda me faz alguma impressão dizer e até escrever "Portugal ganhou a Eurovisão". Quando vi a semifinal em que “Amar Pelos Dois” foi ouvida pelo público pela primeira vez, disse instantaneamente que, de todas as canções, aquela era a única que eu conseguia imaginar na Eurovisão. Não era a minha favorita, mas foi algo que eu consegui reconhecer. No entanto, já em semana de ensaios, lia que Portugal era um dos favoritos e só conseguia pensar que estava tudo doido. Alguma vez? Portugal até podia ser dos favoritos, mas eu sempre tive a ideia de que ia acontecer algo semelhante a 2008. Não aconteceu, ganhámos mesmo. Salvador teve os seus percalços, as suas dificuldades, mas chegou e venceu com a sua boa voz, a sua postura peculiar, mas, acima de tudo, com a sua bonita canção feita por Luísa Sobral e orquestração magnífica de Luís Figueiredo.

Apesar de estar muito contente com esta nossa vitória, confesso que há algo que me prende de tecer maiores elogios a Salvador Sobral, porque a sua atitude me faz espécie. Mais do que gostar da presença de Portugal na Eurovisão eu amo a Eurovisão. Com anos bons e anos maus (como este). E ver um vencedor da Eurovisão que nunca sentiu a mínima euforia por participar nela, nem mesmo depois de vencer – veja-se que Salvador ainda ontem disse que a melhor coisa da experiência eurovisiva foi conhecer Caetano Veloso, pois que importância tem vencer o maior festival de música do mundo -, é algo que me entristece e que me faz querer que tivesse ganho alguém que realmente quisesse muito isto e reconhecesse o seu valor e dimensão. Mais ainda do que reconhecer o valor do festival, seria importante que o representante português desenvolvesse algum respeito acerca dos outros 41 concorrentes, e não limitar-se a referir que enquanto a sua música era tártaro, as restantes eram hambúrgueres – no entanto, semanas após ter dito isto, ao conhecer os Timebelle em Kiev disse não ter ouvido as músicas numa entrevista. Que interessante.


É importante que não nos esqueçamos, nós, os que estão aqui ano após ano, que vemos a Eurovisão como uma oportunidade de conhecer diferentes géneros musicais, que sabemos apoiar uma boa canção pop mesmo que no nosso dia-a-dia nem seja o género de canções que costumemos ouvir, que se a Eurovisão não tivesse esta diversidade musical muito provavelmente nem eu nem muitos de vocês estariam aí. É importante não nos esquecermos de que cada artista tem o seu género musical e ninguém é mais nem menos do que ninguém se quiser fazer canções que não sejam sentidas, que não sejam baladas, que não tenham uma orquestração magnífica, que se baseiem em efeitos visuais, porque tudo faz parte e há espaço para todos, como a Eurovisão já nos tem vindo a habituar há décadas. Ninguém tem a legitimidade para querer mudar um concurso com 60 anos de existência, quando só o começaram a ver "ontem".






A canção do Azerbaijão foi, de longe, aquela com a qual mais me identifiquei a partir da primeira vez que ouvi a canção e assisti ao videoclip oficial. Conhecendo as participações deste país, sabia que não iam fazer menos do que arrasar completamente em palco. E isso aconteceu. Dihaj quebrou a onda de más intérpretes deste país, desenvolveu o melhor conceito em palco e só foi triste não ter chegado ao merecido top10. A intérprete azeri aceitou a participação no festival de uma forma extraordinária, encarando uma personagem do início ao fim da época eurovisiva.

Não posso evitar mencionar a Moldávia. Em 2010, os SunStroke Project faziam parte dos meus favoritos, e o seu regresso em 2017 deixou-me mesmo contente. Sergei Yalovitsky tem uma voz que adoro, e o Epic Sax Guy dispensou qualquer tipo de apresentação. Prefiro “Run Away” a “Hey Mamma”, mas a verdade é que esta última foi claramente superior em palco e isso transpareceu na tabela de classificação. Terceiro lugar, o melhor resultado de sempre para a Moldávia! A juntar Portugal e a Bulgária, 2017 teve o top3 mais imprevisível e agradável.


Na Eurovisão já vem a ser hábito haver canções que não prestamos qualquer atenção até sermos surpreendidos com a sua apresentação em palco. Se eu não dava nada pela canção da Hungria até ao festival (mesmo que reconhecesse que "Origo" tinha tudo aquilo que eu defendo neste festival e que apenas o rap me incomodava), a verdade é que a performance deixou-me completamente arrepiada e rendida. Um justíssimo top10 para a Hungria. Entre as canções que surpreenderam em palco, a Arménia foi indiscutivelmente o país com a melhor produção no que toca a jogos de luzes, pirotecnia e planos de câmara. Achava “Fly With Me” uma música diferente mas mediana, mas ao vivo superou todas as expectativas.  Artsvik ficou abaixo do top15, o que a tornou numa das maiores injustiçadas da final, assim como Anja Nissen, da Dinamarca, a melhor voz desta edição que acabou por sair prejudicada por atuar entre a Itália, a grande favorita dos eurofãs, e Portugal, o vencedor. 


Quanto às semifinais, foi triste ver a Grécia na final em vez da Islândia, e ver Bielorrússia, Áustria e Croácia em vez da Estónia, Macedónia e Sérvia. Continuam a acontecer injustiças na Eurovisão e nós, como somos masoquistas, continuamos a apoiar um concurso que nos deixa emocionalmente arrasados. Confesso que ainda me custa aceitar que os Triana Park ficaram abaixo de Omar Naber na semifinal. E arrepia-me pensar que a Dinamarca podia ter ficado pelo caminho se tivesse menos três pontos.


A organização da Ucrânia surpreendeu pela positiva. Nada é comparável a uma organização da Eurovisão na Suécia, mas foram muito competentes, até a nível de grafismo, o que me leva a acreditar que Portugal não tem desculpas para não fazer um espectáculo arrebatador em 2018. A Ucrânia superou por completo a Suécia a nível dos interval acts, não por ter conseguido superar a grandeza de "Love Love Peace Peace", mas na medida em que não há a necessidade de ir buscar Timberlakes quando existem no país artistas de qualidade, como foi possível ver pela performance da incrível Ruslana e pela viagem pelos sons tradicionais dos Onuka e da orquestra NAONI.


Resta-me exprimir a minha felicidade por ir ver a Eurovisão ao vivo em 2018, principalmente por saber que vou ter a oportunidade de assistir a interval acts com medleys dos 1500 participantes de todas as edições do Festival da Canção interpretados pelo António Calvário em parceria com a Simone de Oliveira. Mal posso esperar.

Imagens: digitalspyuk, escbrasil, /Vídeos: Eurovision Song Contest



1 comentário:

  1. No fim da prestação do Salvador Sobral repare como a cantora da arménia ficou emocionada. O mesmo acontecendo com outros. Trata-se da pior eurovisão para si! Portugal venceu porque foi diferente e não a mesma recita que parece também não lhe agradar na totalidade. No Euro 2016 vencemos porque tivemos um calendário facilitado e fomos melhorando. Aqui fomos a jogo com todos e vencemos sem qualquer dúvida. Canções como as da Finlândia, Bulgária, Itália, Hungria eram interessantes.

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