A Eurovisão e o Festival da Canção na imprensa nacional - 1967 e 1968



1967 – O vento soprou para Norte

      Pode dizer-se que 1967 é o ano da consagração do Festival da Canção e da Eurovisão em Portugal. Depois de um arranque tímido, a quarta participação portuguesa movimentou grandes atenções na população, na imprensa, nos artistas (foram submetidas 148 canções) e a própria RTP decidiu abrir os cordões à bolsa.
      Pela primeira vez, o Grande Prémio TV da Canção contou com eliminatórias. Realizadas a 11 e 18 de fevereiro, em cada uma das galas se ouviram seis canções, elevando o número de participantes nessa edição do Festival para 12, à semelhança do primeiro ano. Além disso, também pela primeira vez não se soube a identidade dos compositores (só foram revelados depois da final). A única informação que havia a esse respeito era o facto de metade dos temas escolhidos serem dos compositores concorrentes nos anos anteriores. Os restantes eram de estreantes.
      Havendo mais temas a concurso, era quase uma necessidade haver também mais e novos artistas. De facto, em 1967 estrearam-se nas lides festivaleiras vários rostos. Foi, talvez, uma tentativa de a RTP calar os críticos, que apontavam a falta de rotatividade nos cançonetistas a concurso.
    A primeira semifinal, realizada, tal como todas as outras emissões, nos Estúdios da Tóbis, apresentou ao público cinco cantores em estreia no Grande Prémio. Foram eles (qualificados a laranja): Rui Malhoa, Marco Paulo, Valério Silva, Maria de Lurdes Resende e Duo Ouro Negro.


      O jornal O Século escreveu, no dia seguinte ao da semifinal, que o júri distrital mais uma vez se dispersou, o que mostra o nível semelhante dos temas. Como forma de apurar a opinião do público e de comparar com a do júri, o mesmo jornal distribuiu boletins de voto para que os leitores pudessem não só exprimir a sua opinião como também habilitar-se a ganhar uma viagem a Viena, para assistirem à Eurovisão. Uma iniciativa que a revista Flama também decidiu levar a cabo. Só engrandeciam o Festival… (ver fotos abaixo).


      Na semana seguinte decorreu a segunda eliminatória. Esta trouxe apenas um artista novo, Eduardo Nascimento, que defendia dois temas. Os Duo Ouro Negro tinham outra canção aqui, esperando repetir o triunfo da primeira gala. Além deles estavam Artur Garcia e António Calvário, também ele com duas canções. Calvário era, aliás, o único artista que até então não falhara um único festival. Simone de Oliveira podia também ter participado; convites, pelo menos, não lhe faltaram, mas recusou-os todos. As razões, de acordo com o Século Ilustrado (SI): “estou cansada de festivais (…). Também não estou para aturar (…) nervos e mais nervos, o disse-tu-direi-eu, a má lingua…”. 


O Século volta a fazer manchete com o Festival: “Melhor nível geral na segunda etapa”, que premiou Duo Ouro Negro, Eduardo Nascimento e Artur Garcia. No artigo, porém, não deixa de escrever que o certame ficaria melhor se fosse condensado numa única gala. As semifinais “roubam espetacularidade e emoção” e “colocam as composições em (…) desigualdade”. De resto, fica o registo de que a semifinal, em termos de estrutura, foi igual à primeira.
A canção que mais pontos obteve nas eliminatórias foi “O Vento Mudou”, que um Eduardo Nascimento adoentado interpretou. Só tinha, contudo, dois pontos a mais que “Livro Sem Fim”. Ia ser, portanto, uma luta entre um conjunto de vozes negras. António Calvário seria novamente o grande derrotado: não apurou nenhuma das suas canções para a final, um registo negativo que já vinha de edições anteriores.
Na Flama, na edição publicada na semana da final, um leitor bastante crítico apontou vários defeitos às canções escolhidas: “É impossível que em 148 canções concorrentes não houvesse 12 canções melhores”. Disse ainda que era preciso melhorá-las bastante e a algumas era mesmo necessário dar-lhes ritmo, de tão antiquadas eram. 
A final aconteceu uma semana depois, a 25 de fevereiro. Os artistas apurados voltaram a pisar o cenário da Tóbis, todo ele em tons de verde (a cor que melhor resultava em televisão, naquele tempo). 

Canção nº 1 – “Quando Amanhecer” – Duo Ouro Negro
Canção nº 2 – “O Vento Mudou” – Eduardo Nascimento
Canção nº 3 – “Sou Tão Feliz” – Marco Paulo
Canção nº 4 – “Livro Sem Fim” – Duo Ouro Negro
Canção nº 5 – “Não Quero o Mundo” – Maria de Lurdes Resende
Canção nº 6 – “Porta Secreta” – Artur Garcia

Momento de descontração dos finalistas.

Relativamente aos boletins de opinião d’O Século, o jornal confirmou, na capa do dia da final, que foram recebidos “muitas dezenas de milhar”. O apuramento dos resultados, bem como o sorteio das viagens a Viena, seria feito a 8 de março. A iniciativa foi um sucesso.
Artur Garcia fez uma grande campanha para ver se conseguia o apuramento para a Eurovisão. Ele, em colaboração com a Grande Feira do Disco, oferecia aos leitores que respondessem ao inquérito da Flama 500 discos e uma viagem a Viena, isto caso ele vencesse o Festival da Canção. Mas não aconteceu.


  Eduardo Nascimento ganhou a 4ª edição do Grande Prémio com facilidade: 120 contra os 78 pontos da segunda classificada, “Livro Sem Fim”.
     “O Vento Mudou” foi composto por dois estudantes universitários, Nuno Nazareth Fernandes (música) e João Magalhães Pereira (letra). Os jovens tinham composto o tema mas não gostaram do resultado final. Pensaram em desistir, mas a irmã de João, na altura com sete anos de idade, conseguiu aprender facilmente o ritmo da canção. Foi aí que viram potencial.


       O Século escreveu na sua capa de dia 26 que ganhou “de novo uma composição medíocre”, entre outras de “baixo nível”. Começou o artigo dizendo “vamos muito mal a Viena”. No restante texto são lançadas várias críticas às músicas, letras e ao regulamento da RTP, que dava destaque aos músicos principiantes.
Já a Flama sugeriu que ganhara “uma equipa chamada juventude”. No entanto, os resultados dos inquéritos realizados por várias publicações provaram que a favorita do público era “Porta Secreta”, de Artur Garcia, que ficou em 5º lugar na final.

Brincadeira da Flama.

      O espetáculo foi absolutamente igual ao das semanas anteriores, ainda que a realização de Luís Andrade tenha merecido aplausos. A única inovação da emissão veio dos ouvintes de Angola, que puderam partilhar com a Metrópole as suas preferências. Claro que os seus favoritos foram os artistas angolanos: em primeiro lugar o Duo Ouro Negro e depois Eduardo Nascimento. Todos os finalistas receberam da RTP, apesar de tudo, prémios monetários.
Para a Eurovisão, que ia decorrer a 8 de abril no salão de festas do Palácio Imperial de Hofburg, a canção escolhida sofreu mudanças, tal como acontecera com “Ele e Ela”.
Ao contrário das vezes anteriores, a cobertura da imprensa à Eurovisão começou muito mais cedo. O Diário de Notícias (DN) publicou artigos relativos aos ensaios e ao ambiente que se vivia em Viena. Foi depois dos ensaios gerais que o representante nacional confessou ter “as melhores esperanças”. O comentador da BBC disse mesmo que a canção tinha possibilidades.


        Eduardo disse ainda que esperava ganhar, mas já ficava feliz se ficasse “entre os seis primeiros”. Quando questionado sobre a sua maior concorrência, o cantor apontou Raphael, que regressava para representar Espanha, o italiano Claudio Villa e Sandie Shaw, do Reino Unido.
       A britânica era, aliás, a grande favorita. Tinha à sua volta uma enorme campanha de marketing e não parecia haver dúvidas nos corredores do Palácio de que a vitória iria para ela. A estratégia estava tão bem montada que, imagine-se, ela, mesmo sendo míope, retirava os óculos em cada vez que via um jornalista!


      Contudo, também havia em Viena um grupo de pessoas que achavam que toda a publicidade poderia prejudicar as aspirações de Sandie. Esse era também o ponto de vista do DN, que escreveu: “não estranharemos, assim, se o almejado troféu for para um dos intérpretes que menos trabalho têm dado à imprensa”, como seria talvez o caso de Raphael.
     A imprensa teve ainda de lidar com um escândalo provocado pela Itália e pela Finlândia. Os primeiros acusaram os britânicos de terem colocado a canção “Puppet on a String” à venda antes do dia 8 de março, data a partir da qual os temas poderiam circular. Contudo, membros da UER depressa concluíram que a canção apenas saiu a 10 de março, validando a participação de Sandie. Houve ainda quem pensasse que a canção tinha inspirações do “Quebra-Nozes”, de Tchaikovsky.
     Já a Finlândia acusou a canção italiana, “Non Andare Più Lontano”, de ter sofrido bastantes modificações face à versão inicial, que era supostamente a oficial. Veio-se a saber que a única alteração feita à música foi o corte do verso inicial, para que ela ficasse mais curta. Não há Eurovisão sem escândalos…
      A 8 de abril, O Século noticiou que a cotação de “O Vento Mudou” na bolsa das apostas subira depois do ensaio geral. Além da canção, também o cantor foi muito elogiado e recebeu mesmo propostas de trabalho de vários países.


      A 12ª edição da Eurovisão trazia um modelo de votação diferente: cada um dos 10 membros do júri de cada país, que continuavam a não ter nada a ver com o mundo da música, dispunha de um voto, para dar à sua canção preferida. Podia acontecer que um só tema recebesse 10 votos, ou que se pontuassem 10 países diferentes.
      Foi o sistema de votação que fez com que o Reino Unido ganhasse com tamanha vantagem sobre a 2ª classificada, a surpreendente Irlanda. Foram 47 contra 22 pontos. Correram rumores de que os júris votaram na Irlanda por ser precisamente uma canção fraca; ao lhe darem pontos, estavam a evitar pontuar as maiores rivais das músicas dos seus países.
      As capas dos jornais no dia seguinte deram destaque à final eurovisiva. Diz o DN que “a Inglaterra entrou «descalça» e logo comandou”. Era a primeira vez que o Reino Unido vencia e também a primeira vez, de muitas que viriam, em que as canções em inglês derrotaram as de língua francesa.



       Portugal somou apenas três votos, vindos de Espanha, Suíça e França, o que deixou o país na 12ª posição.
      Certamente que todo o país assistiu com ansiedade à final europeia (bem como os cerca de 250 milhões de espetadores por todo o continente), mas a província de Angola foi a que passou o serão com mais nervos. Na falta de televisores, as estações de rádio locais passaram todas as músicas da Eurovisão, em disco, pela ordem em que atuaram em Viena. Depois da votação, as rádios depressa deram a notícia da classificação, que muito desiludiu os angolanos.


     Quem também ficou desiludido foi um dos responsáveis da RTP, Manuel Jorge Veloso. Em declarações ao Século, disse que a vencedora “é uma canção completamente decadente”. Eduardo Nascimento partilhou da mesma tristeza: “Espero a compreensão de todo o público português”, salientando ainda que a sua canção não destoava das restantes.


        A edição de 1967 custou à ORF, emissora austríaca, cerca de 2 milhões de escudos (cerca de 10 mil euros). Premiou uma canção de que a Europa gostou (há pelo menos 180 versões dela), mas que não caiu nas graças da própria intérprete. Sandie Shaw confessou não gostar de “Puppet on a String”. Isto explica-se pelo método de escolha da BBC: o canal escolheu internamente Sandie e o júri premiou a melhor canção das cinco que ela apresentou. A vitória eurovisiva, ao menos, será sempre dela! 
       Portugal esperava ter mais sorte no ano seguinte. Depois do sol de inverno e de muita ventania, chegava o “Verão”. 

1968 – Um "Verão" que não aqueceu

        Mais um ano, mais um Festival. Era, como dizia a Plateia, a “quinta tentativa para uma canção europeia”.
      A RTP não pôs de parte a tradição e levou a cabo mais um Festival da Canção, “o tipo de programa que, sem dúvida, se tem mostrado (…) mais capaz de cativar o interesse e a curiosidade gerais”, como diz o DN.
      O Festival realizou-se no Estúdio C da Tóbis, numa segunda-feira, 4 de março. A ideia das semifinais, que não foi muito bem aceite no ano anterior, caiu por terra e apenas se fez uma gala, com 10 canções, escolhidas entre 247 temas candidatos, valor recorde.

Canção nº 1 – “Vento Não Vou Contigo” – Mirene Cardinalli
Canção nº 2 – “Fui Ter Com a Madrugada” – Tonicha
Canção nº 3 – “Pouco Mais” – Nicolau Breyner
Canção nº 4 – “Ao Vento e às Andorinhas” – João Maria Tudela
Canção nº 5 – “Verão” – Carlos Mendes
Canção nº 6 – “Balada Para D. Inês” – José Cid
Canção nº 7 – “O Nosso Mundo” – António Calvário
Canção nº 8 – “Calendário” – Tonicha
Canção nº 9 – “Dentro de Outro Mundo” – Simone de Oliveira
Canção nº 10 – “Canção ao Meu Piano Velho” – Simone de Oliveira

 À exceção de Simone de Oliveira, que tinha dois temas, do sempre presente António Calvário e de João Maria Tudela, concorreram seis novos artistas. Não sendo tão conhecidos, é normal que as revistas da altura publicassem as biografias dos intérpretes. No dia do Festival, garantidamente, ninguém poderia dizer que não conhecia os cantores.


 A quinta edição trouxe algumas mudanças, sendo a maior delas a modernização do sistema de apuramento dos votos. A época da ardósia e do giz tinha chegado ao fim; a partir de agora, os votos já não seriam anunciados por telefone mas sim através de microfones-auscultadores, e as pontuações seriam acrescentadas ao painel automaticamente. Claro que estas modificações tinham um senão: exigiam mais trabalhadores. Foram cerca de 200 as pessoas que estiveram envolvidas na produção do espetáculo. Outro aspeto que mostra o cuidado que havia na preparação do Festival foi o tempo que se levou para definir o cenário: foram dois meses de trabalho para se desenhar o palco perfeito! Depois de todo o esforço, era compreensível que a RTP tivesse escondido dos jornalistas, até ao último momento, o cenário. Sabia-se, no entanto, que a zona do palco onde ia estar a orquestra pretendia dar a ilusão de que os músicos estavam suspensos no ar. 


      De resto, a emissão manteve-se igual: Henrique Mendes tornou a apresentar, ao lado de Maria Fernanda; os compositores continuaram no anonimato até acabar o Festival; os júris tinham a mesma constituição e as suas regras eram iguais.
Um dado curioso foi que a orquestra foi composta por 45 pessoas, vindas das bandas da GNR, dos vários ramos das Forças Armadas, da Emissora Nacional e do Teatro S. Carlos. Só os músicos custaram à RTP mais de 100 contos (cerca de 500 euros). Não parece difícil dizer, dado o investimento na tecnologia dos votos, a contratação de tanto pessoal e sabendo ainda que o canal ia dar 5 contos a todos os participantes e 15 ao vencedor, que este foi o Festival que mais custou aos cofres da emissora: estima-se que tenha sido 600 contos (quase 3 mil euros).
A imprensa, que cada vez cobria mais o espetáculo, estava ansiosa por conhecer a canção de Portugal para Londres. Todos esperavam que fosse melhor que a de Eduardo Nascimento, que, embora a tivessem elogiado em Viena, agora pareciam odiar… Mas pode dizer-se que isso não aconteceu. 
O Festival foi seguido com o entusiasmo habitual. Nessa noite choveu bastante em vários pontos do país, o que fez certamente aumentar o número de espetadores. O Século chegou mesmo a comparar o interesse do público no certame com o que existiu para o jogo Portugal-Coreia do Norte, do Mundial de Futebol de 1966. Os cafés e as leitarias encheram para ver a emissão.


Ainda assim, a excitação depressa deu lugar à desilusão, devido à qualidade das canções. A falta de uma canção muito forte notou-se na votação: foi a mais renhida até então. Foi Viseu quem deu a pontuação necessária para “Verão” ganhar. No estúdio, poucos acreditaram no que estavam a ouvir; até o escrutinador da votação pediu ao porta-voz do júri para repetir. Sendo o último distrito a votar (seguira-se a ordem alfabética), não havia dúvida: aqueles 7 pontos dados a Carlos Mendes eram também um bilhete para Londres. Tonicha, em segundo lugar, via, com tristeza, o seu sonho adiado…
A canção eleita foi composta, soube-se no fim da gala, por Pedro Osório e escrita por José Alberto Diogo. Ao revelar as equipas por detrás das restantes canções, soube-se com espanto que seis delas foram criadas por Pedro Jordão, um completo amador que nem sabia sequer ler uma pauta de música!


Terminada a gala, apoderou-se do estúdio a euforia dos vencedores, mas também alguma dúvida sobre a escolha. Ao Século, o maestro Joaquim Luís Gomes disse que a canção é “a expressão da mocidade” e que, portanto, “é uma boa canção para levar à Europa”. Mas é precisamente essa modernidade que a imprensa, o público em geral e alguns especialistas contestavam. Alguns diziam mesmo que Carlos ganhou por ser jovem e atraente. Outros diziam que a canção, no seu todo, era medíocre. O jornalista do Diário Popular (DP) escreveu: “achei piada à anedota”.


Nas críticas destacou-se a Flama. Na sua rubrica de sátira, intitulada “Krokòdeilos”, sugeria que o Festival foi um boletim meteorológico; de facto, todas as letras faziam referência a estados do tempo. Mais do que a falta de criatividade, acusavam a fraca qualidade da vencedora. Parece que os leitores acharam agressiva a postura da revista, que, na semana seguinte, teve de se justificar: “lamentamos ter sido obrigados a desancar violentamente a vitória” de Carlos. No mesmo texto, diz que o Festival foi “um grande cataclismo”. Noutra página estende a sua indignação a todo o país: “somos (…) incapazes de criar”.


Carlos Mendes, estudante de Arquitetura, prometeu dar o melhor de si em Londres, mas manteve-se consciente da sua vida habitual. Tanto que, no dia do Festival, teve, às 17h00, uma aula na Faculdade de Ciências. Daí rumou para os estúdios, onde se preparou para o direto. No dia seguinte, deveria estar às 8h00 numa outra aula, na Escola Superior de Belas Artes. Certamente não estava a contar com a vitória. Apesar de ir representar Portugal, considerava a experiência um “pequeno capítulo” da sua vida. Pretendia focar-se nos estudos: “logo que termine [a Eurovisão], acabo também eu como artista…”, desabafou à Flama.
Os seus adversários no Festival, ou sinceros ou a querer evitar polémicas, disseram que acharam os resultados justos e que Carlos era o melhor.
      Segundo conta o DP, Simone de Oliveira passou o dia do Festival bastante nervosa. Mal comeu durante o jantar oferecido pela RTP. Minutos antes de subir ao palco, a cantora virou-se para um dos realizadores, Luís Andrade, e disse: “esqueci-me de letra!”. Luís foi a correr buscar a letra e chegou a tempo de lhe dar. No caso de ser necessário, Simone podia estar em palco e ler o poema pelo papel, algo que acabou por não acontecer. Ainda assim, a sua crise nervosa acabou por vencê-la: mal caiu o pano, Simone desmaiou. Foi levada para a enfermaria do estúdio onde lhe injetaram simpatol. João Maria Tudela também levou uma injeção: durante a tarde perdera a voz.


As expetativas para Londres eram, como se pode calcular, muito baixas. O tempo passou sem grande ansiedade pela chegada do dia 6 de abril. Contudo, a duas semanas da Eurovisão, a imprensa nacional animou-se com um escândalo.
A revista Rádio e Televisão (R&T) descobriu que “Verão” não era inédito! O regulamento do Festival estipulava que os temas tinham de ser apresentados pela primeira vez na gala. Acontece que a canção tinha sido ouvida por, pelo menos, 20 mil pessoas! O tema era frequentemente tocado pelo Quinteto Académico, ainda que na sua versão inglesa, “Summer”. Pedro Osório confirmou a informação, mas defendeu-se dizendo que fora tocada “à experiência”, e a letra era diferente da versão de Carlos Mendes. Claro que este foi o pretexto ideal para choverem mais críticas à canção. A RTP manteve a calma. À R&T disse: “Mesmo que não seja inédita, a sua divulgação anterior estaria circunscrita a um número reduzido de ouvintes”. Resultado: Portugal levaria “Verão” até ao frio Reino Unido.


O mês de abril depressa chegou e Londres recebeu as delegações dos 17 países participantes. Era a terceira vez que o Festival tinha lugar naquela cidade. O palco da Eurovisão montou-se no Royal Albert Hall, um dos espaços mais mediáticos da capital britânica, aberto em 1871. Tem mais de 828 portas, 11 bares e há pelo menos duas cadeiras a ser arranjadas todos os dias.


Para saciar a curiosidade do público, as publicações nacionais enviaram equipas de reportagem à capital da canção europeia. A Flama foi uma delas. O DP igualmente, criando um caderno destacável com todas as informações do Festival: alinhamento e biografias de todos os intérpretes.
Este foi um concurso muito mais renhido do que anteriormente. Não havia um grande favorito, sendo que as maiores atenções caíam talvez em Espanha, representada por Massiel, ou no Reino Unido, cujo tema, “Congratulations”, foi composto pelas mesmas pessoas que fizeram “Puppet On a String”. Além disso, o tema era defendido por Cliff Richard. Uma curiosidade: a canção tem esse nome porque a mulher de um dos compositores ia dar à luz, e a palavra foi muito ouvida nesse momento. Vale a pena referir também a francesa Isabelle Aubret, vencedora da Eurovisão em 1962.


Em Portugal deu-se mais atenção a Espanha, que viu a sua participação em Londres envolta em polémica. Originalmente, o tema “La, La, La” ia ser cantado pelo popular Joan Manuel Serrat. Mas ele queria fazê-lo em catalão; escreveu uma carta à emissora onde exigia isso mesmo. A TVE, de acordo com a ideologia do regime de Franco, achou inadmissível a exigência. Depressa o substituiu por Massiel. A cantora quis primeiro cantar a canção que levou à final nacional, mas acabou por aceitar “La, La, La” (em língua espanhola, claro). Deixou para trás contratos milionários na América em busca do sonho europeu.
Como não podia deixar de ser, houve algumas peripécias. Nos ensaios, um trio de albaneses invadiu o gabinete do chefe de produção da BBC e disseram: “somos albaneses e queremos apresentar a nossa canção ao Festival”. O senhor lá recusou, mas os estrangeiros, de óculos escuros e bigode, insistiram. De repente… começa a tocar “Congratulations” em versão jazz. Era apenas uma brincadeira, ou uma jogada de marketing…, de alguns responsáveis da BBC.
Pela primeira vez, o concurso ia ser transmitido a cores, algo que só atingiu mais sete países (além do Reino Unido): Alemanha, Finlândia, França, Holanda, Noruega, Suíça e Suécia. Como acontecia de ano para ano, o número de espetadores aumentou: cerca de 300 milhões de pessoas viram o espetáculo, não só nos países concorrentes como também no leste europeu e na América, onde o certame passou em diferido. Em Portugal, os cafés tornaram a encher para assistir à final. 
Esses muitos milhões foram logo premiados com a nossa canção. Portugal abriu, pela primeira vez, o desfile de canções, “o que não é muito agradável”, disse o SI


Num Festival muito equilibrado, Massiel conquistou a primeira vitória para Espanha. “La La La” teve só mais um voto que a canção do Reino Unido, e ambas não ficaram muito à frente da proposta francesa, que fechou o pódio.
Como já era tradição, os jornais arrasaram o nível das canções, no dia seguinte. O Século diz que não houve “nada de notável”, mas reconheceu o bom nível dos artistas. Em relação à vitória de Espanha, o jornal considera-a bastante justa (e fez questão de exprimir isso logo na capa). Surpreendentemente, elogiaram a atuação de Carlos Mendes, o seu à vontade e simplicidade. No conjunto, dizem, “Verão” até nem ficou mal. Em jeito de boca para as publicações que mais atacaram a canção, o jornal diz que todos devem ter ficado surpreendidos, e sugeriu que para a próxima mantivessem mais a calma… O SI, na sua capa, diz que Portugal “não foi brilhante mas também não foi mau”.


Ainda assim, a Flama, sempre a mais crítica, não se acalmou. Com uma equipa em Londres, deram conta de que o representante português teve poucos ensaios, tendo até sido preciso alugar uma bateria e comprar uma guitarra para que Carlos e os seus músicos ensaiassem no bar do hotel. No ensaio geral, cujas gravações foram enviadas aos júris nacionais, a nossa atuação foi tão desastrosa que se ouviram gritos de protesto da plateia. 
A canção da casa acabou por perder para a polémica proposta espanhola, e isso parece ter irritado a organização do concurso. Quando os jornalistas estavam a fotografar Massiel, as luzes do cenário foram desligadas. Outro percalço da emissão foi no fim da atuação jugoslava: um compatriota furou a segurança e correu para o palco, para dar um ramo de flores à dupla. No fim de contas, de acordo com o DP, o espetáculo, a apresentação e o cenário foram excelentes.


Algo que todas as publicações esperavam era que Portugal não voltasse a pontuar tantos países como em 1967… mas isso aconteceu novamente. É certo que não fomos o país a pontuar mais nações, mas, em 17, oferecemos pontos a sete. O recorde nesta edição foi para o Luxemburgo, que pontuou oito: “consequências da pluralidade de fronteiras…”, sugeriu o Século.
Terminado o Festival, Carlos regressou a Lisboa e teve muitas fãs à sua espera. Teve de fugir a correr do aeroporto e entrou num carro que o levou para longe. Regressou à sua vida académica. Ele disse mesmo que considerou a sua ida a Londres um passeio turístico. De facto, a camisa azul que vestiu na final foi comprada em Londres, e custou 70 escudos. Uma curiosidade: o cantor subiu ao palco sem maquilhagem alguma, já que o maquilhador disse que a pele dele era muito boa.
Portugal só teve a honra da visita de Massiel, como cantora, em 1973. Atuou no Maria Matos mas não cantou o seu maior êxito. Disse que esse tema era festivaleiro, ao contrário do estilo que queria para a sua carreira. Era a segunda vencedora seguida que não apreciava aquilo que cantou…
Depois de nos três primeiros anos terem ido à Eurovisão as maiores estrelas da música ligeira portuguesa, em 1967 e 68 foram dois jovens estreantes, que foram arrasados pela imprensa. Para 1969 parecia estar fora de questão cair no mesmo erro… O que viria aí?

21/09/2013

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1 comentário:

  1. De uma coisa a Eurovisão não foge à regra à politica existente e aos países vizinhos.
    Claro que isto hoje levou uma evolução muito grande.
    Mas as casas de apostas as massas ou pseudo massas existentes para ganhar uma música hoje é fácil antecipar o vencedor da eurovisao com 1 mês de antecedência.
    É bom quando acontecem surpresas como a de 2006 o facto de ter arruinado o Dima Bilan. E as casas de apostas nem previam a Finlândia a passar a semi final.
    Eurovisão igual a política mas vou continuar sempre a ser fã.
    Falta-vos uma rubrica que fale sobre as politicas eurovisivas e o porque de existir tanta injustiça.

    Ass: ''Aspas'' ''Aspas'' vosso fiel leitor

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