A Eurovisão e o Festival da Canção na imprensa nacional - 1974 e 1975



1974 – Depois do adeus, um cravo

     O país ardia política e socialmente, mas o Festival da Canção serviu para alegrar as almas dos portugueses mais uma vez. Passavam-se 10 anos desde a estreia de Portugal no certame e as últimas participações registaram bons resultados.
      A este FC concorreram 191 canções, de onde saíram 10 para se apresentar ao vivo no dia de anos da RTP, no Maria Matos:

Canção nº 1 – “Imagens” – Green Windows
Canção nº 2 – “Bailia dos Trovadores” – Duo Ouro Negro
Canção nº 3 – “Canção Por Todos Vós” – Verónica
Canção nº 4 – “A Rosa Que Te Dei” – José Cid
Canção nº 5 – “E Depois do Adeus” – Paulo de Carvalho
Canção nº 6 – “Dona e Senhora da Boina” – Artur Garcia
Canção nº 7 – “No Dia em que o Rei fez anos” – Green Windows
Canção nº 8 – “Cantiga ao Vento” – Fernanda Farri
Canção nº 9 – “Canção Solidão” – Helena Isabel
Canção nº 10 – “Temos de Cantar” – Xico Jorge

      Na lista destacavam-se dois nomes: Paulo de Carvalho e José Cid (que cantava também nos Green Windows). O primeiro contou que a sua canção nascera num voo entre Lisboa e Montreal e tem “suficiente qualidade para ganhar”. O segundo, assustado com três músicas, queria dar “A Rosa” a Amália Rodrigues, que recusou.
    Assistia-se ao renascimento de Artur Garcia e Duo Ouro Negro e à estreia de muitas figuras. Destaque para a conhecida de todos nós Helena Isabel, que concorreu apenas para ganhar visibilidade para a sua atividade teatral.
Os Duo Ouro Negro estavam, na altura, mais focados para a música das colónias. Entraram no FC porque “em Portugal não há mais nada” que os permita aparecer. Não querem, por isso, ganhar. Algo que também não queria Xico Jorge, que, embora se estreasse, já levava 15 anos de carreira em bares. Verónica confessou ter feito a sua canção numa só noite, a 29 de dezembro. Já Artur Garcia esteve em risco: o original da sua canção desaparecera, mas lá se encontrou uma solução. Todas estas histórias foram contadas pela Rádio e Televisão (R&T), que dedicou páginas a entrevistas com compositores, intérpretes e orquestradores. Até as letras foram publicadas!


Os grandes ausentes foram Fernando Tordo e Ary dos Santos. Este último disse que não entrou porque queria ver como seria o festival sem ele. Toda a gente sentiu falta do seu estilo moderno. Este foi, aliás, considerado por todos um festival muito fraco. Parecia que algumas pessoas o anteviram, porque houve pela primeira vez lugares vagos na sala!
Antes do desfile, atuou a brasileira Alcione. Depois houve 30 minutos de intervalo preenchidos com um filme sobre a TV em Portugal. O concurso foi apresentado por Glória de Matos (uma estreia) e Artur Agostinho.
As canções (boas ou más) atuaram sem problemas. O pior veio depois, com a votação. Este ano, o Funchal votou pela primeira vez e a apresentação não seguiu a ordem alfabética dos distritos. Entre eles havia ainda as pontuações dos nove elementos do júri de seleção. 
      A meio da votação, o quadro eletrónico foi abaixo e ficou-se na dúvida sobre o que fazer. Nessa altura já o público da sala estava inquieto com a larga margem de Paulo de Carvalho (precisamente aquele que levou uma maior ovação), e alguém gritou: “o quadro é que está certo. Não quer registar a batota”. Como a votação não podia parar, foi-se buscar um quadro a giz e a apresentadora lá foi somando as restantes pontuações. Muitos elogios choveram à dupla, por não ter perdido a postura.


O certo é que os júris de seleção deram 86 pontos (em 90 possíveis) a “E Depois do Adeus”. O público reagiu muito mal, ainda que fosse óbvio que mesmo sem esses pontos Paulo fosse ganhar.
O cantor recebeu também o Prémio de Interpretação. Foi ao palco receber os troféus e um abraço do muito eufórico Fernando Tordo. José Cid foi também receber os prémios por ter ficado em 2º e 3º; a caminho do palco, fez um gesto para a câmara como quem diz “fui roubado”.


Terminada a gala, foi tempo de a imprensa falar com os participantes. Paulo concordou em que o festival foi muito fraco, e disse que o seu tema no ano anterior não teria ganhado. Sobre os 86 pontos do júri, achou-os “um tanto exagerados”, e sentiu-se triste pela reação das pessoas: “vencer nestas condições põe-me triste”, disse, explicando que o júri votou porque “acreditou numa canção e num intérprete”. Mas agora vinha a Eurovisão: “cantar em Brighton vai ser como cantar noutro lado qualquer”. Contudo, levantou a possibilidade de o fazer em inglês, uma vez que havia letra já feita.


José Niza, o letrista, disse que Paulo “precisava mesmo de ganhar. Se não era uma autêntica tragédia” para a carreira do cantor, que só recebia 10 contos mensais e dava poucos espetáculos, porque não havia garantia de boa qualidade. Acerca da letra, que muitos disseram estar longe dos poemas de anos anteriores, ele disse que “são os poemas que se podem fazer…”, numa alusão à censura.
     Tordo continuava eufórico e dizia que a canção do seu amigo podia “servir melhor os intentos eurovisivos, melhor até do que o fez a Tourada”. Já Ary achou a vitória justíssima: “ganhou o futuro da canção portuguesa”.


Cid continuava incomodado com a derrota, chegando a afirmar que o Festival “não tem importância nenhuma”, que o resultado “estava feito” e que as chances de Paulo eram “nenhumas”. A vencedora era “uma canção chocha”, enquanto a segunda classificada, o seu “No Dia em que o Rei fez Anos”, tinha mais força e ritmo para a Eurovisão. Depois, muito mais irónico, disse: “para a RTP, o Paulo de Carvalho é mais tranquilizante, pois eu nem sempre sou um tipo muito pacífico…” Quanto a um regresso, ele sugere que a RTP não deve ter vontade de o ter outra vez, mas diz que vai voltar.


       Para Cid fica a consolação de ter sido o preferido do júri formado em Angola e Moçambique, além de ter tido o apoio da multidão que protestou fora do Maria Matos contra os “gatunos” do júri. À saída do teatro, um responsável da RTP virou-se para os jornalistas e disse “faço ideia de como vão falar de nós”.


Tinha razão para ter medo. O Diário Popular (DP) disse que a RTP devia mudar o júri de seleção, que escolheu “originais (?) que nunca deveriam ter merecido” estar no FC. Um crítico deles, Marcos Ruy, sentiu falta de canções de protesto, uma vez que houve muitas de amor. Para o jornal, a única coisa boa foi a descontração dos apresentadores.
      A Flama disse que, depois de uns anos em que se fugiu dos estilos tradicionais e se tentou inovar, novamente se caiu no “abismo”. A revista arrasou principalmente Fernanda Farri, Verónica e Artur Garcia (“são, rápida e obrigatoriamente, para esquecer”). Quanto à vencedora, disse que vivia da interpretação e da orquestração.


      O Século comentou que “E Depois do Adeus” foi “excelentemente defendida” por Paulo. Na sua revista, Século Ilustrado (SI), lê-se que ganhara a melhor canção, mas que isso era “muito relativo”, dada a qualidade geral. A respeito de José Cid, a revista disse que ele foi tão comercial que optou pela facilidade: “com os rodriguinhos de uma encenação (…) procurou mascarar a debilidade de três composições desmioladas”. Nessa mesma edição do SI, um leitor enviou uma carta onde insinuava que os 86 pontos foram propositados para que Paulo vencesse, uma vez que a RTP queria mesmo levá-lo à Eurovisão.
      A R&T chegou mesmo a agradecer a António Andrade pelo facto de este ter sido o único jurado a não dar os 10 pontos a Paulo: “sem este procedimento, a suspeita de uma manobra em bloco, previamente combinada, decerto ganharia contornos bem mais desagradáveis”. A revista torna a insistir num festival só com um intérprete, à semelhança do que fazia a BBC.
Como se já não bastassem estes problemas, ainda correu o rumor de que um dos jurados dos distritos era surdo! No entanto, estava decidido: Paulo ia à Eurovisão e era tempo de trabalhar (do FC para o ESC só houve um mês de diferença).


      Carlos Cruz assumiu logo a função de promover o tema, e planeou um passeio pela Europa para vender a canção às editoras. José Calvário efetuou algumas mudanças na música (poucas), mas que, segundo a Plateia, fizeram o tema perder 90% das suas possibilidades. Paulo nem assim se animava. Ao SI, confessou não esperar grandes melhorias na sua carreira, porque sentia falta de apoio das editoras. 
A semana eurovisiva chegou depressa e as páginas encheram-se com biografias dos participantes. Um batalhão de jornalistas viajou a Brighton, a sede escolhida pela BBC. A região era muitas vezes referida na imprensa como o “Algarve inglês”: havia praia, sol e boas instalações. Recorde-se que o Luxemburgo, vencedor do ano anterior, não quis organizar pela segunda vez o certame.
A BBC gastou 3 mil contos, um valor elevado que fez com que elementos da emissora pedissem a divisão dos gastos por todos os participantes. Além disso, para a imprensa britânica, o dinheiro não era assim tão bem gasto: os jornais só falaram no Festival no dia da final. A BBC, contudo, contratou até uma pessoa para controlar os aplausos. Cada canção recebeu 10 segundos de palmas e nada mais!
Em Brighton havia animação. As lojas tinham fotografias e cartazes de Olivia Newton-John, a cantora do Reino Unido, que era inicialmente a favorita. Mais tarde, com o decorrer dos ensaios, o Luxemburgo, a Holanda e a Suécia, dos ABBA, foram subindo nas apostas. A Itália destacava-se por trazer novamente Gigliola Cinquetti, 10 anos depois da vitória. Ainda assim, a sua participação foi marcada por uma polémica: a RAI, emissora do país, recusou-se a passar o ESC ao vivo, porque considerava que o título da canção, “Si”, incentivava a população a dar essa mesma resposta (sim) no referendo que se ia realizar sobre o divórcio. Assim, os italianos só viram a sua participação depois de 12 de maio, data da votação. A EBU aceitou esta medida, tal como aceitou a desistência da França, por causa da morte de Georges Pompidou.


      Portugal teve, como a imprensa relatou, uma presença muito discreta: Paulo só foi aos ensaios e aos eventos oficiais, de que faziam parte algumas festas. De resto, o cantor apenas foi ao cinema e às compras. Houve ainda tempo para a festa portuguesa, no hotel onde a delegação estava hospedada. Aos convidados, deram-se rosas, minigarrafas de vinho do Porto e um disco da canção.
Mais uma vez, a Eurovisão foi sinónimo de grande controlo policial. Nos hotéis e no The Dome, o local da gala, havia polícias a fiscalizar todas as pessoas que se aproximavam. Mas a polícia não conseguiu evitar que uma grande bomba caísse em Brighton…


A BBC resolveu mudar, a 48 horas do espetáculo, o sistema de votação. Isto porque, desta vez, cada país ia ter 10 jurados a pontuar cada canção de 1 a 5. Este modelo faria com que a votação demorasse mais de uma hora. O que a BBC fez foi pegar no modelo que vigorou até 1970 – cada um dos 10 elementos do júri tinha um ponto para dar a uma só canção. Assim, as probabilidades de um país ter zero pontos eram muito maiores; com o modelo que estava previsto, o mínimo que um país poderia ter era 160 votos.
Como o presidente da BBC era o mesmo da EBU, não houve qualquer impedimento. Mas a decisão causou uma autêntica revolução, isto porque a EBU não avisou as delegações presentes em Brighton, preferindo antes comunicar a alteração para as sedes das emissoras, por toda a Europa. Isto só serviu para baralhar e indignar os concorrentes.
Paulo de Carvalho manifestou-se logo: “é suja esta manobra”. O que a delegação portuguesa pensava era que a EBU queria assim beneficiar canções já de si com mais potencial. Além de Portugal, protestaram com vigor a Alemanha, a Holanda, a Espanha, a Suíça, o Luxemburgo e… o Reino Unido! A delegação britânica protestou contra a decisão dos seus superiores. Marcou-se logo uma reunião em Montreux para se discutir o assunto, mal acabasse o Festival.

Um dos favoritos

No seio da equipa portuguesa, falou-se na possibilidade de desistir. Afinal, foi por causa deste modelo de votação que a RTP saiu em 1970. Contudo, a imprensa apurou que o canal ia participar na mesma, mas só para não prejudicar a realização do certame.
Além disso, Carlos Cruz e Paulo acharam que, face a esta mudança, mais valia cantar a versão inglesa da canção, para ver se conseguiam ter mais hipóteses. Discutiu-se a possibilidade no seio da delegação e pediu-se autorização aos diretores da RTP, em Lisboa. O DP contactou o diretor de programas, Miguel de Araújo, que disse que “como em anos anteriores, autorizamos o nosso representante a cantar em inglês durante os ensaios”. Mas na noite “cantará em português”. O mesmo tentou fazer a Jugoslávia, mas igualmente sem sorte.
      Entretanto, e aparte os escândalos, os portugueses focaram-se no trabalho. Artur Agostinho ensinou a apresentadora, Katie Boyle, a dizer “boa noite” e “obrigado”. O realizador Luís Andrade ajudou o seu colega da BBC a escolher os planos de câmara para a atuação nacional. Um membro da RTP andou a convencer os artistas de outros países a participarem no programa “Domingo à Noite”.
     Quem também esteve em Brighton foi Teresa Sachetti, namorada e futura esposa de Paulo. Outra presença foi a de Helena Isabel, que viajou no papel de comentadora para uma revista. Curiosamente, Paulo casar-se-ia com Helena também. Ainda que longe, Fernando Tordo mandou-lhe um telegrama: “não te esqueças de me trazer os comprimidos para a garganta que te pedi, e não te esqueças de ganhar”.
Em declarações ao DP, Paulo disse estar mais à vontade na Eurovisão do que no Festival: “sinto menos guerrinhas à minha volta”. Mas a imprensa rapidamente arranjou conflitos, principalmente depois da gala.


No dia seguinte à final, que foi a 6 de abril, o DP chamou “decadente” ao nível do concurso. O jornal fez também um inquérito na rua e muitas pessoas admitiram não terem dado grande importância ao ESC. Alice Vieira, como habitualmente, foi assertiva: disse que a vitória devia ter ido para Espanha, Holanda ou Alemanha, e não para a “palhaçada das Abba”. A Suécia ganhou com 24 pontos… e Portugal levou apenas 3, ficando no último lugar.


O Século explicou a má classificação de Paulo por “fatores externos”, a política, isto porque a atuação foi “excelente” e aplaudida com “bravos”. Em relação à Suécia, disse que tinha “a canção mais animada e ritmada do Festival”. O chefe da delegação nacional considerou a vencedora “a melhor canção de sempre”, mas prometeu levar o modelo de votação a discussão.
O Diário de Lisboa disse que a letra de “E Depois do Adeus” era fraca, a música, inspirada em Sinatra, estava ultrapassada, e o gesto que Paulo fez com o braço também não ajudara.


As revistas preferiram acusar a Europa. A Plateia disse que houve “má vontade” ao esquecer a qualidade da nossa canção, “a melhor melodia e a mais espetacular das orquestrações”. Já a R&T disse, a propósito da mudança nas votações, que “uma vez mais se verificou que há países donos e senhores do Festival e outros que são (…) segregados dele”.
Paulo reagiu à sua classificação da seguinte forma: “política! É tudo quanto tenho para dizer”. Mais tarde, já calmo, disse ter “a consciência absoluta” de que era dos melhores. Artur Agostinho disse também que foi tudo “uma palhaçada”.


Já os ABBA estavam esperançosos em que a vitória lhes abrisse portas. Benny confessou ter temido a Holanda. Frida explicou que o estilo da banda “é muito popular na Suécia”. Mas não foram só eles as estrelas: o seu maestro estava vestido de Napoleão, numa alusão à batalha de Waterloo.
Algumas pessoas na imprensa começaram a pedir a retirada da RTP. Se as reuniões que se iam realizar não tivessem frutos, o país garantidamente não participaria em 1975. A própria RTP dizia isso. Ao menos, havia a alegria de o disco de Paulo estar à venda em 19 países.
Algo importantíssimo aconteceu algumas semanas mais tarde. Cancelou quaisquer planos que pudessem existir para o futuro. O país entrou num período muito conturbado durante o qual nada era certo. Quem pensaria, nos meses seguintes ao 25 de abril, em festivais? A única ligação entre o evento e a Revolução dos Cravos foi a canção escolhida para lhe dar início. “E Depois do Adeus” é a única canção eurovisiva que está, também, nos livros de História.

1975 – Uma madrugada com pouca luz

       O país estava em pleno PREC. A sociedade estava completamente transformada e inflamada, e a rutura com o fascismo notava-se em tudo, mesmo na televisão. 
    Quem pensava em Festivais, quando eles eram uma marca do antigo regime? Os próprios apresentadores da edição de 1975, Maria Elisa e José Nuno Martins, diriam mesmo na gala que “a televisão tem agora coisas mais importantes com que se preocupar”. A participação portuguesa na edição deste ano só fora decidida na primeira semana de fevereiro (a Eurovisão seria a 22 de março).
     A decisão foi elogiada sobretudo pela Plateia: “faltar poderia fazer supor toda uma série de dificuldades que, efetivamente, não devem existir”, dizia, relativamente aos problemas políticos. Em nota de curiosidade, a revista gozava tanto a sua liberdade que fazia capas com mulheres nuas.
       Por ter sido tomada já em cima da hora, e porque o país não estava para cantigas (nem a imprensa, que fez menos cobertura), a RTP mudou radicalmente o formato do Grande Prémio TV. O canal convidou 14 compositores, mas só 10 aceitaram. Zeca Afonso e Fernando Tordo foram convidados mas recusaram. O primeiro por razões pessoais, o segundo por questões políticas.
      Surgiram assim 10 canções, que deveriam representar a música que se fazia em Portugal nesta nova era. Foram as seguintes:

Canção nº 1 – “O Pecado Capital” – Fernando Girão e Jorge Palma
Canção nº 2 – “Madrugada” – Duarte Mendes
Canção nº 3 – “Batalha-Povo” – Paco Bandeira
Canção nº 4 – “Com uma Arma, Com uma Flor” – Paulo de Carvalho
Canção nº 5 – “A Boca do Lobo” – Carlos Cavalheiro
Canção nº 6 – “Leilão da Lata” – Fernando Gaspar
Canção nº 7 – “Canção Acesa” – Vítor Leitão
Canção nº 8 – “Memória” – Paulo de Carvalho
Canção nº 9 – “Alerta” – José Mário Branco
Canção nº 10 – “Viagem” – Jorge Palma

O Festival teve duas grandes estreias: Sérgio Godinho e José Mário Branco. Eram nomes que no Estado Novo não podiam cantar livremente, pelo que não perderam a oportunidade de passar a sua mensagem (altamente política). Aliás, este Festival foi dominado pela política e preocupações sociais: capitalismo, opressão, política, comunismo, emigração.


      O tema de José era o mais revolucionário. Ele representava o Grupo de Ação Cultural Vozes na Luta, que cantava habitualmente em comícios e protestos a favor do povo. Aceitaram participar por causa dos 6,5 milhões de espetadores (dizia a RTP) que iam ver o concurso. Como diziam, era “um ato político importante” e não lhes interessava ganhar. A sua canção nem era inédita: a extrema-esquerda já a conhecia de cor.
      Pode dizer-se que havia dois grupos: aqueles que eram de esquerda apoiavam a canção feita por Sérgio Godinho (cantada por Carlos Cavalheiro); os restantes estavam por Duarte Mendes. O DN dá conta de rumores de que houve jogos políticos nos bastidores.
       O Festival não aconteceu em direto. A RTP gravou no Maria Matos as atuações dos concorrentes e depois passou-as duas vezes: na sexta feira, 14 de fevereiro, na RTP1, às 13h, e nessa noite, na RTP2. No dia seguinte a RTP tornou a transmiti-las e depois foi a votação, em direto. Esta decisão do canal mereceu críticas: disseram que o Festival perdeu “impacto e comunicabilidade” e que a RTP quis “abafar” o concurso, quase como se tivesse vergonha dele.
      O (pouco) público que esteve no Maria Matos não levou smoking e vestido de gala: “A Canção RTP-75 não foi o acontecimento pomposo e despropositado dos anos anteriores”.
Pôs-se também de parte a votação distrital, os júris e os prémios de interpretação. Votaram os letristas e compositores dos temas a concurso. Cada um deles tinha de pontuar todas as suas adversárias de 1 a 5. Em caso de empate, votava-se de novo, mas aí apenas se podia dar 5 pontos a uma das empatadas. Se mesmo assim ficasse tudo na mesma, cabia ao presidente do júri (o diretor de programas da RTP, Nuno Martins) votar. Os votantes tinham um minuto para explicar os seus votos. 
No dia seguinte à apresentação das músicas, o DP disse que “Alerta” era a canção que mais sobressaía e que por isso merecia vencer. Mas foi “Madrugada” que ganhou.


A canção, que foi recusada no Festival de 1974, só teve mais dois votos que Carlos Cavalheiro. Os outros concorrentes acharam, no geral, que a canção foi uma boa escolha. O grupo de José Mário Branco é que foi mais crítico: depois de ter dado 1 ponto a todas as canções, disse mais tarde que o concurso era uma “manobra reacionária que lesa os interesses do povo português trabalhador” e que qualquer canção servia para participar na “palhaçada de Estocolmo”.
O DP escreveu, sobre “Madrugada”, que “corre o risco de, à falta de impacto rítmico, não se integrar totalmente no esquema Eurovisão”. A vitória foi vista como “um equívoco”.


     A Flama disse que, num festival tão político, acabou por vencer a neutralidade: “o primeiro festival da TV em mangas de camisa, sem vedetismos, mas com intenções políticas não conseguidas, a avaliar pelo trecho que nos irá representar em Estocolmo”. A revista defendeu que a de Carlos era a melhor.
Duarte Mendes estava satisfeito com o triunfo, depois de várias tentativas. Sobre a canção, disse: “transmite um estado de ansiedade que se vive aqui e agora”. O cantor achou que talvez a música estivesse “um tanto aquém do que deveria estar” em termos eurovisivos, mas que por isso iam trabalhá-la até lá.


O compositor, José Luís Tinoco, estava surpreendido com a escolha, mas elogiou Duarte: “sendo um dos capitães do 25 de abril, tornou este Festival possível”, disse. Nuno Nazaré Fernandes, compositor da 10ª canção, disse que não havia nenhuma capaz de mostrar à Europa o novo Portugal. 
Carlos Mendes foi entrevistado pela Plateia para analisar o resultado deste ano. O responsável pela nossa melhor posição de sempre até então disse que “Madrugada” não ia mudar a imagem que a Europa tinha de nós. “A canção a escolher deveria ser um «trabalho de laboratório»”, sugerindo a colaboração do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ele diz ainda que a RTP devia “saber melhor o que é o Festival da Eurovisão”.



Na mesma edição da revista é publicado o resultado de um inquérito feito na rua. Depois de metade das pessoas terem dito que não viram o Festival, as restantes mostraram gostar mais de “Com uma Arma, Com uma Flor”. Duarte Mendes ficou a zeros.
Em Estocolmo montou-se a tenda para o espetáculo, que decorreu no Stockholmsmässan, numa localidade próxima da cidade. Além do palco e das restantes estruturas, os suecos criaram um grande sistema de segurança, com polícias e cães a rondar o edifício e a inspecionar o seu interior. A polícia vasculhava até as carteiras de todas as pessoas que entravam! Pedro Osório desabafou que “foi mais fácil fazer o 25 de abril do que entrar” na sala.
Bateu-se um recorde este ano: concorreram 19 países, número possível pelo regresso da França e Malta e pela estreia da Turquia. A Grécia, em protesto contra a entrada deste último, saiu.


A delegação portuguesa foi bem mais pequena do que habitualmente: além de Duarte Mendes, da sua mulher e da equipa da canção, foram dois elementos da RTP e muito poucos jornalistas. Com a queda do Estado Novo, houve uma mudança nos membros: o chefe da comitiva já não era António Bivar, mas sim Maria Manuela Furtado. A Casa de Portugal em Estocolmo deu-lhes as boas-vindas.
Duarte foi rapidamente batizado pela imprensa como o “capitão-cantor”. A sua conferência de imprensa foi, aliás, mais sobre política do que música. Nela, o artista disse ter esperança em que o país fosse evoluir para uma solução de paz. Ele, contudo, desapontou a imprensa ao dizer que não abandonaria as Forças Armadas, mesmo que ganhasse o ESC, e que não iria cantar de uniforme militar.


No ensaio, cantou em inglês, deixando os jornalistas impressionados com a crueldade da letra. As suas coristas eram suecas. No que diz respeito a favoritos, o Reino Unido era novamente o primeiro lugar. A banda que o ia representar, os Shadows, tinha feito um tremendo sucesso nos últimos 15 anos, ao nível dos Beatles e de Cliff Richard. O Século diria que “quando alguém como Cliff ou os Shadows aceitam a viagem, isso quer dizer que há muito entraram no ocaso da sua carreira e já nada têm a perder”. Apesar de tudo, os mais promovidos foram os Teach-In, da Holanda.


Paralelamente ao ESC, a cidade encheu-se de eventos culturais, com artistas de vários países. Houve ainda um festival alternativo, feito por jovens que se queixavam da comercialidade das canções eurovisivas. Queriam, por isso, apresentar música mais tradicional. Duarte Mendes foi convidado para participar, mas não pôde comparecer.
Depois do escândalo em 1974, a SVT e a EBU mudaram o sistema de votação. O que surgiu aqui estende-se até hoje: cada país tinha um júri de 11 pessoas, controlado por um representante das emissoras. Os jurados votavam e depois apresentava-se a votação global do país, pontuando os 10 melhores temas de 1 a 12. O júri português tinha uma média de idades de 30 anos e não havia especialistas.
No dia 22 de março, entre 500 a 600 milhões de pessoas puseram os olhos no desfile musical. Os tempos mudaram e só seis países iam ver a preto e branco, entre as várias dezenas que iam receber a emissão. O DN disse que o número de países onde o festival foi transmitido fez dele um “verdadeiro acontecimento mundial”.
A Holanda foi a primeira a cantar… e a primeira classificada! Os Teach-In cantaram “Ding-a-dong” e choveram 152 pontos. Os britânicos ficavam novamente para segundo plano, com 138. Itália fechou o pódio com 115.


A imprensa arrasou este Festival. O DN comentou que, uma vez mais, ganhara um tema que não era favorito. Ainda assim, face ao dos Shadows, o holandês tinha mais frescura e ritmo. Quanto a Duarte, ele “portou-se bem”, e a nossa letra foi “a mais significativa” do ano. Musicalmente, enviou-se novamente uma canção “bem pouco portuguesa” e que tenta apenas “macaquear o estilo e o ritmo internacionalmente aceites”.


O Século quis saber por que razão, dado que tínhamos uma canção política, não a cantámos noutra língua que não o português. Ainda assim, Duarte cantou bem, e o jornal gostou de ver os Shadows a perder, por estarem ainda agarrados ao passado. Contudo, não gostou de que tivessem perdido para a Holanda, cuja canção “era suficientemente fácil, comercialona e destituída de qualidade para ganhar”.
O DP disse que só Portugal e a Finlândia não tinham temas comerciais, e que “o que na realidade fazia falta era acabar definitivamente com o Festival”.


A Flama fez um título onde se lê “Estocolmo apresentou canções de embalar a Europa”. No meio da insignificância geral, Portugal fez questão de não dar nas vistas. A expetativa que havia de que, com o 25 de abril, o país ficasse mais bem visto pela Europa caiu por terra. A vencedora também não trouxe nada de novo: era uma cantiga “igual a tantas outras ouvidas e por ouvir”. Quanto à emissão, a revista diz que foi chata, e que o festival é algo fútil e subartístico.



Já a Plateia parece ser mais calma: disse que houve bastantes canções com qualidade para vencer, mas que a holandesa não era uma delas. Os Teach-In, dizem, foram uma imitação dos ABBA, e aquilo que foi original com os suecos não foi com os holandeses. Quanto aos Shadows, a Plateia diz que deviam ter concorrido 10 anos antes. “Madrugada” não foi injustiçada: o jornalista reconhece o significado do poema, mas, musicalmente, a canção é de qualidade inferior.
Como já vimos, o público português tinha outras preocupações mais imediatas, de maneira que o ESC passou um pouco mais despercebido do que nos anos anteriores. A própria imprensa dedicou menos páginas, sem exclusivos, sem polémicas, sem declarações da delegação portuguesa na Suécia. A Plateia lamenta que isto esteja a acontecer. Disse o jornalista que não há “qualquer incompatibilidade entre a música, que é uma arte, e o processo revolucionário que atravessamos”
       Como estaria o país daí a um ano? Haveria condições para participar na Eurovisão? Em Portugal, vivia-se apenas um dia de cada vez…

12/10/2013

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