A Eurovisão e o Festival da Canção na imprensa nacional - 1980, 1981 e 1982


1980 – Um grande, grande resultado!

       À semelhança do ano anterior, a RTP realizou de novo três semifinais antes da final. A comprovar o sucesso do Festival, o canal recebeu 419 originais, que foram depois reduzidas a 27 canções. Em cada gala entravam nove, das quais saíam apenas três para a final.
      As eliminatórias aconteceram a 1, 8 e 15 de fevereiro, no Teatro Villaret. Depois das atuações dos artistas, acompanhados por um conjunto mais pequeno (só na final haveria uma orquestra), os cinco jurados votavam; eram eles Luís Villas Boas, Simone de Oliveira, Pedro Bandeira Freire, Filipe de Brito e João David Nunes. Cada um dispunha de cinco votos. As suas decisões eram tomadas com base no ensaio geral; no direto apenas se justificavam. Esse ensaio era também gravado pela RTP para enviar para as ilhas.
    A primeira eliminatória tinha nomes grandes do meio musical. Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Pedro Osório e António Sala tinham canções a concurso; em palco estiveram Armando Gama, Helena Isabel (a solo, nos SARL e nas Alegres Comadres, onde atuavam também Adelaide e Mila Ferreira e Ana Bola), Lena D’Água e a conhecida atriz Rosa do Canto.
      A eliminatória foi vencida pelos SARL, que esperavam o triunfo. Em segundo lugar ficou Madi, o sul-africano que pouco sabia de português. A respeito deste apuramento, o Correio da Manhã (CM) comentou: “vá-se lá entender o júri”. Manuel José Soares, cuja letra era de um jornalista desse jornal, foi o outro apurado.


      As decisões dos jurados mereceram críticas. Paulo de Carvalho, compositor de Lena d’água, disse que o júri não teve coerência. João David Nunes foi o mais arrasador: ele aconselhou os Fantástica Aventura a “procurar outra atividade”.
      Na segunda semifinal, que teve a representante holandesa, Maggie MacNeal, na plateia, estavam as Doce, Lara Li, Dina (ou Dinah) e os Bric-à Brac, entre outros. Vale a pena referir Zica, o homem que levou o rock pela primeira vez ao certame e Zélia Lopes, que teve direito a anúncios em jornais que diziam que tinha “uma canção para ganhar”. Ficou em penúltimo.


     Os vencedores foram, como previra o CM, os Bric-à-Brac, Dinah e Doce, todas com pontuações superiores às apuradas da primeira semana. Esta gala foi muito elogiada pela qualidade dos temas. A TVGuia disse que houve “maior animação e arranjos cénicos visualmente muito agradáveis”, já que muitas canções eram festivaleiras. O Diário Popular (DP) escreveu que “o espetáculo passou e a qualidade não ficou para trás”. O Diário de Notícias (DN) achou que passaram as três propostas mais profissionais.


     Ainda assim, quem mais conquistou a imprensa, concorrentes e especialistas foi Dinah. Carlos Cruz disse que ela era “um caso sério”. O seu responsável contou que ela chegou à editora com uma guitarra para gravar um tema para o FC. Ela cantou e todos ficaram “autenticamente fulminados”.
     A terceira gala trazia o grande favorito: José Cid. Além dele, estavam Carlos Paião, conhecido por ter escrito para Amália Rodrigues, Carlos Alberto Vidal (o futuro Avô Cantigas), e a dupla António Sala e Alexandra (ambos injustiçados no ano anterior e apontados como finalistas certos).


    José Cid, que tinha a sua mulher, Maria Armanda, e Ramon Galarza nos coros, ganhou sem surpresas a eliminatória. O CM elogiou-o: “se há canção mais profissional e, ao mesmo tempo, agradável, forte e despretensiosa”, essa canção é a de Cid. Ele ficou surpreendido com a vitória, embora dissesse que era a canção com mais força da sua carreira e que podia alcançar um bom resultado no ESC. "Um grande, grande amor” já existia há três anos mas foi regravada em Paris perto do evento.


      A TVGuia dá conta do bom ambiente entre artistas e dos elogios feitos ao “bom trabalho e espírito aberto” dos organizadores. Já o DP diz que foi a semifinal mais fraca. O amor foi o tema dominante: a palavra apareceu 60 vezes nas nove canções, metade delas na de Cid.
      Encontrados os finalistas, era tempo de a RTP encontrar uma nova sala de espetáculos. No Villaret era frequente haver gente em pé, sem lugar. A dúvida estava entre ir para o S. Luiz ou para a Aula Magna. Os autores aproveitavam para melhorar as finalistas, que eram as seguintes:

Canção nº 1 – “Lição de Português” – Madi
Canção nº 2 – “Concerto Maior” – Manuel José Soares
Canção nº 2 – “Self-Made-Man” – SARL
Canção nº 4 – “Guardado em Mim” – Dina
Canção nº 5 – “Doce” – Doce
Canção nº 6 – “Música Portuguesa” – Bric-à-Brac
Canção nº 7 – “Um Grande, Grande Amor” – José Cid
Canção nº 8 – “Agosto em Lisboa” – Zélia
Canção nº 9 – “Esta Página em Branco” – Quarteto Música em Si


Ao longo destas três semanas, as revistas (especialmente a TVGuia) publicavam entrevistas aos candidatos e as letras dos apurados. A Nova Gente (NG) elogiou a sobriedade e segurança do apresentador, Eládio Clímaco (que na final ia ter Ana Zanatti como colega).
Quase três semanas depois, o S. Luiz começou a receber os artistas para os ensaios. As Frenéticas, grupo brasileiro popularizado na novela “Dancin’ Days”, iam abrir a gala e durante o seu ensaio expulsaram os jornalistas da sala. Elas ameaçaram não atuar em direto por causa das más condições de som, obrigando a RTP a deixá-las cantar em playback.



Ao mesmo tempo, a EDP acelerava a construção de uma cabine nas redondezas para garantir um momento histório: a estreia das emissões regulares a cores, que ia acontecer precisamente com o FC. Depois disto, só a Turquia, Grécia e Malta continuariam com o preto e branco.
Houve tempo também para o programa “Tal e Qual” apanhar alguns concorrentes: os artistas foram chamados a uma sala onde lhes era dito que iam ser desclassificados por terem plagiado outras canções. José Cid foi apanhado, mas esse não tinha razões para temer: era o grande favorito e acabou por ganhar com facilidade.
      Numa gala transmitida em direto no canal 1 e 2 para todo o país (só a Madeira viu a gravação), José Cid teve mais 24 pontos que as Doce e conquistou o primeiro lugar. Além disso, ganhou também o prémio de melhor letra, melhor música e melhor interpretação, além de 50 mil contos.


      O cantor confessara, pouco antes da votação, ter poucas esperanças: “nunca ganhei e não é agora que vou ganhar”. Mais tarde, feliz, disse que “alguma vez havia de ser”. Ao DN comentou também que foi dos Festivais mais dignos.
     Dinah era a grande derrotada, ficando em penúltimo lugar. As Doce, medalhas de prata, ficaram felizes. O terceiro classificado, Madi, estava desapontado e sentiu-se usado, visto que todos sabiam que ia ganhar Cid.
     No dia seguinte, e como as palavras já haviam sido esgotadas nas semifinais, a imprensa pouco falou nos resultados. 
     O DN sugeriu que num festival português a abertura não deveria ter sido feita por brasileiras. No mesmo jornal foi publicado o resultado de uma votação feita entre jornalistas dessa publicação: “Self Made Man” foi a preferida e Cid apenas ficou no 3º lugar.


     Mário Rocha, crítico do DP, escreveu que “já lá vai o tempo em que se tomava um Festival da Canção como uma conquista em África”. Mas o certo é que, de acordo com a TVGuia, este foi um festival voltado para novos artistas, que tinham no FC o único evento musical no país. Esse foi um aspeto focado por todos os jornais: era preciso mais programas de música para tornar os cantores profissionais. Já se começava a sentir, aos poucos, que os cantores começavam a trabalhar para a Europa, apostando mais na encenação, nas roupas e em estilos mais pop.


     Terminado o Festival, a editora de Cid começou logo a trabalhar na promoção do tema, preparando versões em inglês, espanhol e holandês.
     Perante a recusa da emissora israelita em organizar o certame pela segunda vez, a Holanda mostrou disponibilidade e montou o palco em Haia. A gala aconteceu a 19 de abril e os ensaios decorreram nessa semana.
   Portugal levou 32 pessoas à Holanda. Além dos elementos de palco, foram Isabel Wolmar, comentadora portuguesa, e Eládio Clímaco, que ia apresentar a nossa canção em palco, algo que aconteceria com todos os outros países também. Foi uma iniciativa da EBU e da NOS para assinalar os 25 anos do ESC.
     Cid aterrou em Haia como o grande favorito. O jornal oficial do Festival da Eurovisão, num artigo escrito por Hans Kroeze, dizia: “nós pensamos que Portugal ganhará, seguido da Irlanda e da Espanha”. Um editor de música holandês dizia que a nossa tinha as melhores condições para ganhar. De facto, o tema foi vendido para muitos países e mereceu elogios da BBC e Rádio Luxemburgo.
      Com o passar dos dias, outros países se destacaram, como a Dinamarca, a Irlanda e o Reino Unido. Ao mesmo tempo, Portugal foi perdendo poder por causa da falta de promoção (não havia discos nem posters de Cid). Além disso, ele manteve-se sempre muito reservado: não deu conferência de imprensa, pouco apareceu em frente dos jornalistas e não participou muito nas festas.
     O DP contou que o seu jornalista em Haia foi falar com o responsável pela promoção nacional, Mota Alves, que lhe disse para não se preocupar: “já cá ando há muitos anos e nós, em questão de publicidade, estamos muito mais avançados que o resto da Europa”.


      A imprensa portuguesa continuava, apesar de tudo, muito esperançosa. No dia da final, o CM dizia que Portugal corria o risco de ganhar. O DP tinha um artigo cujo título era “José Cid vai mesmo ganhar o Festival da Eurovisão?”. Nele escreveu que as grandes editoras não tinham interesse em que Portugal ganhasse. Cid dizia que gostava de obter uma boa classificação, mas sabia que ia ser difícil.
      Em Haia, houve vários artistas que se destacaram. A alemã, Katja Ebstein, estava pela terceira vez no concurso (tinha entrado em 1970 e 1971), mas agora mostrava-se mais arrogante. Os noruegueses tinham uma canção de protesto contra a atitude do governo da Noruega em relação aos lapões do norte do país, por estar a destruir o ambiente e a roubar-lhes as terras. A delegação de Marrocos, que se estreava no certame, pediu o coro de Cid emprestado para a sua canção. A RTP não aceitou.


      Frente a 350 milhões de espetadores, Cid alcançou o 7º lugar, igualando a melhor classificação de sempre, de 1972. A atuação foi forte, mas o CM escreveu que José puxou demasiado pela voz e o DP disse que esteve “nervoso de mais para quem não é nenhum principiante”. Mas ele, contudo, reagiu bem: “acho que não é uma classificação desonrosa”, mesmo tendo participado naquele que foi, em sua opinião, “o pior ESC de sempre”. O grupo espanhol, Trigo Limpio, comentou que quem devia ter ganhado era Portugal.


     O irlandês Johnny Logan alcançou a primeira das suas vitórias com “What's Another Year”. A canção foi muito elogiada pela imprensa: o CM achou uma das melhores canções e a TVGuia escreveu que foi “maravilhosamente interpretada”. Alice Vieira nomeou Logan o mais simpático do festival.


      Realmente, nem antes nem depois da vitória Logan mostrou algum sinal de antipatia. A sua canção preferida era a portuguesa e desde cedo criou amizade com jornalistas nacionais, tanto que, depois de ganhar, abraçou um do DP por este ter sido o primeiro a dizer-lhe pessoalmente que poderia vencer: “vocês, portugueses, deram-me sorte. Nunca hei de esquecer”, contou, feliz. 
    A vitória de Logan lançou mais discussão sobre o que é, ou deve ser, afinal, uma canção festivaleira, uma vez que a ideia geral era a de que um bom tema eurovisivo devia ser pop e arrojado.


      Esta Eurovisão não teve um acompanhamento tão forte da emissora holandesa, porque no dia 30 de abril haveria a coroação da Rainha Elizabeth e os recursos tiveram de ser partilhados. Contudo, houve uma grande aposta na segurança, que infelizmente não foi capaz de evitar o assalto ao quarto de hotel de dois jornalistas portugueses.
     Enquanto Haia celebrava a Eurovisão, Bruxelas recebia o Festival da Canção da Contra-Eurovisão, um protesto contra a comercialização do ESC. Portugal esteve representado por Sérgio Godinho.

1981 – Depois do casamento, a lua-de-mel

     Para a 18ª edição do Festival da Canção, a RTP retirou as semifinais, selecionando apenas 12 temas para a grande final, que iria decorrer a 7 de março no Teatro Maria Matos. A escolha foi realizada entre “400 e tal” candidatas (o número exato não foi revelado).
     Eládio Clímaco teve, desta vez, a companhia de Rita Ribeiro na condução da emissão, que foi, certamente, a que mais ensaios teve: o recinto recebeu artistas, músicos e apresentadores para testes durante duas semanas. Muitas vezes os ensaios decorriam até de madrugada. O cenário representava uma flor.


     A RTP, como forma de variar, optou por separar as canções com pequenos vídeos em desenhos animados. Assim, o papel dos apresentadores seria mais reduzido. Depois da gala, Alice Vieira comentou da seguinte forma esta decisão: “não seriam as canções apenas aborrecidos intervalos entre os bonecos animados?”
     Como atração internacional, a RTP contratou os Second Generation, um grupo de bailado moderno que foi unanimemente considerado um dos pontos altos da gala.
   Quanto aos artistas, esta edição foi composta essencialmente por nomes já conhecidos dos portugueses: Carlos Alberto Moniz e a sua mulher, Maria do Amparo (que não deixou de concorrer mesmo depois de a mãe ter falecido três dias antes), Bric-à-Brac, Manuel José Soares, Doce, José Mário Branco (como compositor), José Cid, Carlos Paião e as Zélias (Rodrigues e Lopes). Participou também Maria Guinot, um nome que começava a cimentar a sua carreira na altura. O CM disse que uma das grandes surpresas desta edição (“ou talvez não”) foi a falta de nomes novos.

Canção nº 1 – “Tempo de Partir” – Samuel
Canção nº 2 – “Olá, Rapariga, Olá” – Carlos Moniz e Maria do Amparo
Canção nº 3 – “Daqui Deste País” – Bric-à-Brac
Canção nº 4 – “Um Adeus, Um Recomeço” – Maria Guinot
Canção nº 5 – “Amar em Agosto” – Joana e Pedro
Canção nº 6 – “Ali Babá (Um Homem das Arábias)” – Doce
Canção nº 7 – “Vem Esquecer o Passado” – Cocktail
Canção nº 8 – “Tanto e Tão Pouco” – António Branco
Canção nº 9 – “Morrer de Amor Por Ti” – José Cid
Canção nº 10 – “Playback” – Carlos Paião
Canção nº 11 – “Tu Foste o Mar” – Zélia Rodrigues
Canção nº 12 – “Manhã do Meu Sonho” – Zélia Lopes

       Nas entrevistas às principais revistas, os cantores revelaram alguns dados curiosos. Carlos Paião tinha submetido várias canções, e uma delas era interpretada por Herman José, mas os júris pretendiam ter apenas uma canção por compositor. A canção de Zélia Lopes esteve para ir para Fernando Tordo e a música de Joana e Pedro fora eliminada em 1980 mas coube nas 12 finalistas deste ano
      José Cid, mesmo depois do êxito alcançado em Haia, estava de volta e em grande: segundo ele, a sua canção era muito melhor que “Um Grande, Grande Amor”. E porquê? Porque, na Eurovisão, “as pessoas acreditam mais numa cantiga sentida, vivida, real”, e por isso esta balada era a canção ideal. O cantor comentou também que os grandes espetáculos em palco só têm impacto quando vistos no direto. Esta maneira de pensar resulta, obviamente, da vitória de Logan.
    Cid era o favorito, a par das Doce e de Carlos Paião. Foi este último que, surpreendentemente, venceu, com 203 pontos. José ficou em 2º com 164. Ambos receberam pontos de todos os distritos, mas Carlos ganhou oito vezes 12 pontos.


     Este ano, a votação voltou a mudar: os júris estavam reunidos nos clubes recreativos mais antigos de cada capital de distrito e pontuavam canda canção de 1 a 5. A que tivesse mais votos recebia no fim 12 pontos, até se chegar ao 1 ponto. Duas canções eram excluídas da atribuição de votos.
     No dia seguinte ao do Festival, o CM escreveu como título do seu artigo “um novo e inesperado vencedor do Festival”. Contudo, não criticaram a escolha nacional: a canção “assenta bem” no espírito festivaleiro, já que fica no ouvido. A apresentação cénica mereceu elogios por ter sido preparada com muito cuidado, ainda que várias pessoas tenham encontrado semelhanças entre a performance de Carlos e a dos Telex (Bélgica 1980).


      O DN comentou que Paião triunfou por ter tido o único tema a não incidir no amor. Os jornalistas deste jornal voltaram a fazer uma votação entre si e a favorita foi “Tanto e tão pouco”, com a vencedora a ficar em 2º lugar. Um total de 15 jornalistas presentes no Maria Matos votaram em “Playback” como melhor canção. Já o DP comentou que “a música popular portuguesa não avança um passo: recua”.


Carlos Paião era, nos minutos seguintes à gala, a expressão da alegria: “estou tremendamente satisfeito! Com toda a sinceridade, nunca acreditei na minha vitória”. Contudo, disse, ela deveu-se a “uma canção diferente”, que era valorizada por ter uma expressão internacional no título. “Playback” era uma sátira aos cantores que tinham de recorrer a este truque para serem bem sucedidos. Paião sentiu-se muito nervoso por causa da má qualidade do som e por isso achou que Cid devia ter ganhado.
     Este colecionou mais uma derrota no FC, embora não se mostrasse muito incomodado. "Estou encantado. O Carlos Paião vai airosamente ao Eurofestival”, comentou. 
    Maria Guinot, 3ª classificada, estava feliz: “o júri enveredou pela juventude e alegria. Estou plenamente de acordo com isso”. As Doce, que não foram além de um 4º lugar, estavam desiludidas. Fugiram dos bastidores antes de acabar a votação e o DP foi encontrá-las num hotel. “Tudo isto foi uma grande vergonha. Não para nós, mas para quem nos julgou”, comentou Lena, que depois criticou o júri: “isto não é um festival para sociedades recreativas”. As Doce foram também acusadas de terem copiado o tema “Barbara Ann”, dos The Beach Boys.


     Quanto aos outros concorrentes, as opiniões dividiam-se: alguns criticaram a vencedora e outros elogiaram-na por ser fresca e interpretada por gente nova. O festival, a nível técnico e musical, foi amplamente considerado o pior dos últimos anos.
      Carlos Paião havia prometido à sua noiva que, se ganhasse o FC, o casamento ia ser antecipado. De facto, o cantor subiu ao altar três semanas depois (a uma semana de cantar na Eurovisão). E a lua de mel, onde seria? Em Dublin, pois claro!
     A capital da Irlanda recebeu o ESC num antigo hipódromo da Royal Dublin Society, a 4 de abril. Para lá dirigiram-se 20 países, incluindo o estreante Chipre e os regressados Israel e Joguslávia.
     A equipa portuguesa não teve grande sorte nesta sua passagem pelo festival. Além de Paião estar ainda em convalescença de uma gripe, uma das suas coristas, Cristina Águas, foi obrigada a faltar aos primeiros ensaios por ter adoecido. Esses ensaios foram péssimos, muito por causa do mau som da orquestra. 
     Além disso, o palco estava ainda a sofrer obras enquanto os artistas cantavam. Este festival custou cerca de 30 mil contos, um valor que se explica pelo tamanho do palco, o maior usado até então: 45x24 metros, inspirado em motivos celtas. Ainda assim, a RTÉ quis cortar em algumas coisas, e para isso obrigou a apresentadora, Doireann Ní Bhriain, a pedir peças de roupa emprestadas.
     Carlos Paião manteve-se afastado dos restantes artistas e jornalistas. Como escreveu o CM, ele “intercala a lua de mel com meia hora diária de ensaio”; só deu uma entrevista a uma rádio local e gravou apenas o vídeo introdutório de Portugal no Jardim Botânico de Dublin.
    Portugal não estava entre os favoritos, mas isso não parecia importar o nosso cantor, que continuava confiante, ainda que o assustasse atuar logo a seguir ao Reino Unido. O segundo ensaio correra melhor e o disco de “Playback” já vendia em 13 países. Foi possível, pela primeira vez, as delegações visionarem as gravações dos ensaios, para ajudar a corrigir falhas.
    Entretanto, destacava-se na imprensa a generosidade dos representantes da Holanda e Grécia. A primeira, Linda Williams, ofereceu aos jornalistas pacotes de açúcar em forma de coração com o seu nome, enquanto o grego, Yiannis Dimitras, deu garrafas de vinho. A holandesa também gerou polémica por ser a única a substituir parte da orquestra por uma gravação.
    Os britânicos Bucks Fizz também estiveram em destaque devido ao rumor que dizia que um dos vocalistas, Bobby G, estaria envolvido com uma das artistas irlandesas. A banda formara-se de propósito para a final nacional desse ano, onde curiosamente concorria uma canção de Luís Jardim, cantada pelos Headache.


     Esta foi uma Eurovisão mais voltada para o romantismo e para as baladas. Por essa razão, a grande favorita era a Alemanha. Do lado dos temas festivaleiros, os preferidos eram o Reino Unido e a Bélgica. O Luxemburgo, que fazia regressar o vencedor de 1961, Jean-Claude Pascal, não estava mal posicionado nas apostas.
     Eurovisão é sempre sinónimo de protestos: os jornalistas da RTE fizeram greve para exigir mais elementos na redação do canal. A apresentadora do certame, por fazer parte do Sindicato dos Jornalistas, esteve em risco de fazer.


     Perante uma audiência de 1500 pessoas e milhões de telespetadores em 40 países, o Reino Unido alcançou a sua quarta vitória no certame.
     O CM não a achou surpreendente, mas disse que a da Noruega era a melhor, mas ficara em último, “como convém às boas canções do Eurofestival”. Sobre Paião, disse que “desafinou aqui e ali”. 
     O DP não gostou da vitória dos Bucks Fizz, arrasando principalmente a performance: “coreografia com muitas sugestões sexuais e bastante mau gosto”. O DN opinou sobre a canção portuguesa, considerando injusta a penúltima posição e acrescentando que merecíamos melhor sorte.


    Os vencedores estavam radiantes, uma vez que não esperavam o triunfo. Na conferência de imprensa posterior à gala, disseram: “queremos ser tão famosos como os ABBA”. Quanto a Carlos, ele comentou assim os resultados: “não estou interessado em encontrar desculpas nem explicações para o resultado (…) Não estou surpreendido”. O DP foi ouvir outros artistas como Tozé Brito, Simone e Thilo Krassman, que descreveram a nossa proposta como “muito pobrezinha”, “muito fraquinha” e “paupérrima”.



       A NG sugeriu várias razões para o fracasso: “a jovem esposa, a lua de mel, a constipação, a falta de experiência atrapalharam Paião”. O enviado especial da revista, Carlos Castro, disse que foi um dos melhores ESC, elogio lido noutras publicações.


      Vale a pena referir que Johnny Logan não foi convidado para nenhum evento oficial desta edição. Ele estava descontente com o pouco apoio dado pela RTÉ. Apenas deu o prémio aos seus sucessores… e disse “até breve”.

1982 – Nem com o malhão se adoçou a Europa

     A RTP realizou em 1982 mais um Festival da Canção… que podia muito bem não ter acontecido. Esta edição teve de enfrentar várias adversidades até poder ser realmente levada a cabo. 
      A primeira barreira foi a própria RTP: a diretora de programas, Maria Elisa, confessou ao CM que era intenção do canal acabar com o Festival. “Pensámos realmente em desistir do Festival”, devido à forma como as canções eram votadas pelo júri nacional. No entanto, por uma questão de tradição, o FC iria continuar, ainda que com um grande corte no orçamento (daí o cenário ter sido tão simples).
      Depois, o Festival foi parar a tribunal. A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) apresentou uma queixa contra o júri de seleção e exigiu o cancelamento do FC. Em causa estava o facto de os jurados terem escolhido 12 temas “em cerca de 700, no prazo de algumas horas”, como escreveu o DP. O Juízo Civil de Lisboa, depois de ouvir esses membros do júri e a direção da RTP, considerou ilegítima a petição da SPA. A decisão foi revelada a 24 horas da transmissão, já os ensaios decorriam a todo o vapor.
      Por fim, a Federação das Telecomunicações ameaçou boicotar o evento, porque desconfiava de que os trabalhadores do canal não tinham boas condições de trabalho nem salários adequados. Tudo acabou bem e o Festival lá se realizou:

Canção nº 1 – “Quero Ser Feliz Agora” – SARL
Canção nº 2 – “Em Segredo” – Dina
Canção nº 3 – “Vai, Mas Vem” – Fernanda
Canção nº 4 – “Até Amanhecer” – Alexandra
Canção nº 5 – “Sonho a Dois” – Isa
Canção nº 6 – “Trocas Baldrocas” – Cândida Branca Flor
Canção nº 7 – “Gosto do Teu Gosto” – Dina
Canção nº 8 – “Amor Português” – Joana
Canção nº 9 – “É o Fim do Mundo” – Marco Paulo
Canção nº 10 – “Bem Bom” – Doce
Canção nº 11 – “Tudo Tim Tim Por Tim Tim” – Bric-à-Brac
Canção nº 12 – “Banha da Cobra (Estica e Não Dobra)” – Broa de Mel


       Esta edição foi marcada pelo regresso das Doce, Marco Paulo, Alexandra, SARL, Joana, Bric-à-Brac e Dina (com duas canções). Outros nomes sonantes eram os de Fernanda (agora nossa conhecida como Ágata), Broa-de-Mel (que se apresentavam ao público) e Cândida Branca Flor.
    Cândida era a grande favorita nos bastidores. Um inquérito realizado a técnicos e artistas nos ensaios sobre a melhor proposta dava à cantora 70% dos votos. “Trocas e Baldrocas”, o seu tema, foi feito por Carlos Paião. Cândida apostou em grande nesta edição, tendo gastado 70 contos (350 euros) só no vestido, e foi compensada com propostas para se mudar para uma editora maior.


     As Doce, que eram as preferidas antes dos ensaios, foram perdendo força porque quiseram jogar à defesa. Depois de duas derrotas, acharam que era melhor conter-se para não se prejudicarem. A estratégia deu resultado.
     Na gala conduzida por Alice Cruz e Fialho Gouveia a partir do Maria Matos, com a colaboração das personagens Agostinho e Agostinha (Camilo de Oliveira e Ivone Silva) a introduzir as canções, as Doce conquistaram uma vitória à tangente. Apenas seis pontos as separaram de Cândida. Todos os júris, escolhidos pelas Câmaras Municipais das capitais de distrito, votaram nelas.
      O CM foi irónico ao comentar que a banda teve de se tapar para poder ganhar (anteriormente iam bem despidas). Para isso, foram a Paris buscar os fatos de mosqueteiras, que lhes custaram 320 contos. O mesmo jornal arrasou a canção ganhadora: foi a vitória “da pobreza de inspiração e da falta de senso eurofestivaleiro”. Tendo em conta que foi o jornal que mais divulgou o favoritismo de Cândida, não se estranha esta opinião.


      O DP comentou que foi um Festival “bem mau”. Quanto à vencedora, escreveu que a canção não era muito diferente dos temas habituais da banda, mas que mereceu destaque pela atuação. A nível musical, “a melodia é pobre, a orquestração, sofrível, a letra, má”.
     Os jornais elogiaram o bom humor de Camilo e Ivone e a atuação dos convidados, o grupo de bailado moderno inglês Wall Street Crash.
      As reações dos artistas também foram reveladas. Teresa Miguel, das Doce, comentou que a vitória “veio na altura certa”. Esperavam que o ESC lhes abrisse de vez as portas a uma carreira internacional, ainda que a canção tivesse um cunho português, de malhão estilizado. “O ritmo de «Bem Bom» vai ter uma extraordinária aceitação lá fora”, anteviu.


      Dina mostrou-se feliz pelas Doce e Alexandra estava satisfeita com o terceiro lugar. Mas houve quem criticasse. Marco Paulo, uma das grandes estrelas da música portuguesa, ficou em penúltimo lugar, mas disse que o principal veredito era o do público.


   Cândida estava tristíssima. Segundo o CM, mal acabou a votação ela começou a chorar convulsivamente. Depois disse: “não ganhei mas este também não era o meu ano”, sugerindo que voltaria a tentar. Na edição da NG da semana seguinte, a cantora falou em possíveis “trocas e baldrocas” na votação, graças às grandes editoras. Quanto às Doce, ela foi direta: “Portugal este ano não vai ter de maneira nenhuma uma presença dignificante”.



     O certo é que as Doce já se preparavam para a Eurovisão. Elas iam lançar um maxi-single (com “Bem Bom” e outros êxitos) na Holanda, Inglaterra e países castelhanos. O vídeo promocional ia ser feito no Algarve. Tozé Brito, um dos compositores, preparava mudanças na orquestração e a coreografia ia ter mais passos.
    Portugal foi o primeiro país a chegar a Harrogate, uma pequena cidade a meio caminho entre Londres e Edimburgo, que continuou a viver tranquilamente a sua vida mesmo com o ESC ali instalado. A viagem durou 12 horas, graças a paragens em Londres e Manchester e a uma longa viagem de autocarro até Harrogate.
      A nossa delegação era a maior. Viajaram 47 pessoas, sendo 25 delas jornalistas, um valor que nem se compara à equipa da Áustria, por exemplo, que apenas levou duas pessoas. O DP brincou com a situação, dizendo que na sala de imprensa havia dois grupos de jornalistas: “os portugueses e… os outros”.
     Foram esses “outros” que ficaram muito interessados nas Doce. No primeiro dia, foram muito abordadas pelos jornalistas, pese embora o ensaio tenha sido horrível (problemas de som da orquestra). Depois, impressionavam com o seu look.
    As Doce sonhavam em ficar nos seis primeiros lugares. A sua editora tinha ligações a uma multinacional importante no mundo do espetáculo e já se falava em alguns trabalhos. Além disso, algumas fotos delas estavam nas lojas da cidade.



      Para as animar mais ainda, havia a bolsa das apostas: o Reino Unido era o grande favorito, mas Portugal estava nos cinco primeiros. Nos bastidores, falava-se também na Alemanha, Bélgica, Suíça e Israel.
     Apesar de a cidade não ter deixado a sua vida habitual e de o país estar a seguir atentamente a crescente tensão nas Malvinas, que parecia estar a caminho da guerra, não deixou de haver uma receção oficial. Esta aconteceu no castelo de Howard e implicou uma viagem no tempo: as delegações foram transportadas em liteiras, havia empregados vestidos de acordo com a moda do século XVII e músicos a tocar canções dessa época.


      Surgiu na festa a primeira bronca na equipa portuguesa, por o autocarro que levou a equipa da RTP (“apesar de parte deles não ter aqui nada que fazer”, disse o DP) ter chegado muito mais cedo que o dos jornalistas, que perderam assim parte da festa.
      Este foi, aliás, o jornal que mais acompanhou as Doce, tendo colocado sempre uma referência ao ESC na sua capa. Segundo o jornal, as nossas meninas eram as que apresentavam melhor movimentação em palco. De resto, houve referências à Suíça, que trazia um plágio de “Congratulations”, e aos repetentes: Jahn Teigen & Anita Skorgan (Noruega), Anna Vissi (Chipre) e Stella (Bélgica). A Suécia era representada pelas Chips, compostas por nomes que viriam depois a entrar a solo: Kikki Danielsson e Elisabeth Andreassen.


     O ESC aconteceu a 24 de abril, no Conference Centre. Portugal ia abrir o desfile e a Alemanha fechava. Antes de as Doce pisarem o palco, entrou o maestro Luís Duarte, vestido de D’Artagnan.


    Esta edição foi ganha pela Alemanha. A jovem Nicole, de 17 anos, trazia uma “melodia muito simples, sob a forma de balada, servida por excelente orquestração e pela presença fresca da intérprete”, segundo palavras do DP. A canção foi fortemente aplaudida durante a repetição e pôs alguns alemães a chorar. O DN é sucinto, dizendo que “Ein bißchen Frieden” é “incontestavelmente bela”.
      O favorito Reino Unido ficou em 7º. Durante a votação, a audiência respondia com risos irónicos e comentários pouco agradáveis.

A felicidade dos alemães

    A vitória da Alemanha podia ser já esperada, visto que o país ganhara uma sondagem feita aos jornalistas presentes em Harrogate; Portugal, aí, apareceu em 9º. Depois da gala, surgiram mais rumores de que o triunfo alemão era certo há muito tempo, isto porque a editora de Nicole ofereceu discos onde estava impressa a palavra “Winner”. Ela, serena, dizia que só queria regressar ao seu país, comemorar com os seus e depois voltar aos estudos, sem se afastar da música.


     António Pinho, um dos autores de “Bem Bom”, fez uma interpretação da vitória: a Grécia, a França e a Itália não participaram no certame, e por isso tinha mesmo de ganhar a Alemanha para evitar que esta saísse também. De facto, os jornalistas notaram que o interesse começava a diminuir e que se tornava difícil encontrar quem estivesse disposto a organizar o certame, por causa das despesas.


      Apesar do 13º lugar algo desapontante, as Doce iam gravar um disco com músicas de um holandês e tinham concertos marcados noutros países. Tozé Brito, em balanço, comentou que a Eurovisão é, para Portugal, “o cumprimento do calendário depois de apurada a canção vencedora do FC”.


     Terminamos esta análise dizendo que a NG criou o Festival Nova Gente da Canção 82. Realizado em novembro, no Porto, o festival foi elogiado por ser mais uma plataforma para os artistas. A canção vencedora representou o país no Festival Internacional da Canção de Lisboa, também criado pela revista, que chamou artistas estrangeiros para competir. As receitam foram inteiramente para instituições de beneficência.

26/10/2013

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