Na Luta Contra o Preconceito - O racismo e a xenofobia na Eurovisão


O RACISMO E A XENOFOBIA NA EUROVISÃO

Vivemos actualmente tempos em que o racismo e especialmente a xenofobia estão muito presentes no nosso dia-a-dia, especialmente nas redes sociais. Com as notícias sobre a crise migratória que todos os dias nos entram em casa, não é difícil ver opiniões de pessoas que acham que os migrantes não podem entrar no nosso país porque são terroristas, ou porque vêm roubar o nosso trabalho, ou porque... porque não! E sim, a maioria das opiniões tratam-se apenas de xenofobia, são um medo fundamentado apenas pela nacionalidade daquelas pessoas.

Estas vivências não são, no entanto, de agora, e até na Eurovisão, esse concurso que se diz tão liberal e que inclui todos, já se viram casos de racismo. Felizmente, foram mais as atitudes tomadas para combater este problema do que aquelas que o beneficiaram. Mas antes de tudo, vale a pena diferenciar racismo de xenofobia. Enquanto o primeiro implica um sistema em que uma raça é superior a outra e tem o direito de a dominar, a xenofobia apresenta-se como uma antipatia ou desconfiança para com as pessoas que vêm de um meio diferente do nosso.

É fácil perceber que no palco eurovisivo não se apresentam muitos artistas de raça negra. Milly Scott foi a primeira representante de raça negra, em 1966, e Dave Benton o primeiro vencedor, em 2001, e em dueto. Será isto um indicativo de que existe racismo na Eurovisão? De que as participações e vitórias são condenadas pela cor da pele? Com certeza que não. Num continente composto maioritariamente por pessoas de raça branca, é óbvio que a maioria dos participantes seria dessa cor. Aliás, se pensarmos bem, já houve mais vencedores de raça negra do que vencedores portugueses, portanto não é uma questão de racismo e sim uma questão de matemática. No entanto, não precisamos recuar muitos anos para encontrar um caso de racismo gritante, que nada tem a ver com matemática. Se recordarmos a actuação vencedora do Festival Eurovisão da Canção 2012, lembramos facilmente aquele magistral bailarino, que tornou a performance muito mais apelativa e que era... de raça negra. No entanto, a cor da pele de Osbena Jordan parece ter sido mais importante para Christer Bjorkman, o chefe da delegação sueca, do que os seus dotes de dançarino. Bjorkman quis impedir a partipação de Osbena, considerando que as hipóteses de a Suécia ganhar seriam muito maiores em Baku se não se apresentassem com um bailarino de cor negra. Volvidos três anos, fica a questão: com quantos pontos a performance de Osbena terá contribuído para a estrondosa vitória de Loreen?


É curioso reparar que uma das músicas anti-racismo apresentada na Eurovisão veio de um país culturalmente e visualmente diferente da maioria de nós e que apenas participou uma vez: Marrocos. Samira Said cantou “Bitakat Hob”, uma música com um som em tudo condizente com o seu país e uma apresentação idêntica. A música não conseguiu um resultado brilhante, ficando-se pelo 18º lugar. Será este um sinal de xenofobia por parte da Europa? Para desmistificar esta questão, vamos viajar cerca de 4000 km para leste e encontrar um país que, apesar de não ser culturalmente idêntico a Marrocos, também esta bem longe de o ser em relação à Europa. Israel sempre foi, até 2015 (ano em que a Austrália se estreou no concurso) o país mais afastado geograficamente e culturalmente da Europa. Era aquele país que se dizia que participava na Eurovisão e as pessoas diziam “Porquê? Não é EUROvisão?”. Sendo EURO ou NÃO EURO, a verdade é que um dos países que ano após ano nos costuma brindar com músicas que espelham a cultura do país e que ao longo da história conseguiram bons resultados, ou não fosse Israel um dos países com mais vitórias na história do concurso. Portanto, se o fraco resultado de Marrocos foi devido a preconceito, foi um caso bem pontual, já que os fãs eurovisivos costumam ser também fãs das diferenças culturais.


No entanto, nem os israelenses são muito seguros da imagem que passam no concurso. Em 2007, Anastasia Michaeli, âncora de uma emissora israelense, alegou que o representante de Israel naquele ano na Finlândia não devia ter aparência árabe, tudo por causa da guerra com o Líbano que decorria na altura. O aspecto árabe não ajudaria Israel a vencer, por associações à guerra e ao terrorismo. É no entanto curioso ver esta afirmação, quando os vencedores eurovisivos israelenses tinham uma aparência árabe já que, caso Anastasia nunca tenha reparado, é o que eles são e como se aparentam. Alegar semelhante barbaridade era o mesmo que imaginar Angola a participar e o país ter de levar um português, porque é o que mais se assemelha aos padrões europeus. A situação fica ainda mais ridícula quando percebemos que países que nada têm a ver com árabes não tiveram qualquer problema em associar a sua imagem a essa comunidade. Aminata, Tooji, Eric Saade, são alguns dos nomes mais sonantes de representantes com descendência directa de árabes nos últimos anos. Este acontecimento foi em 2007, mas a verdade é que seria sempre um problema, se fosse um problema a sério, já que desde 2001 que os árabes são fortemente associados ao terrorismo e o medo tem-se acentuado com o crescimento da popularidade do Estado Islâmico. Felizmente há resultados para contrariar estas mentes retrógradas e se tomarmos 2001 como marco temporal, dois dos três melhores resultados de Israel foram conseguidos por cantores e ritmos que em tudo se associam àquela zona geográfica. Portanto, qual é o problema daquela senhora, mesmo?


Apesar dos problemas que as próprias delegações enfrentam por quererem os melhores resultados para o seu país, a Europa tem provado que é multicultural e que adora a diferença. Em 2010 pudemos ouvir a música dos InCulto, “Eastern European Funk”, que mais uma vez se refere às migrações do leste europeu para ocidente, sobre as vítimas das circunstâncias, que não são iguais a nós, mas que são tão boas pessoas quanto nós, mesmo que achemos o contrário. Tão fácil adequar a música aos dias de hoje! Mas os esforços foram adiante, quando em 2015 colocamos lado a lado as três apresentadoras do espectáculo. Alice Tumler, Mirjam Weichselbraun e Arabella Kiesbauer são descendentes de diferentes locais do globo e apresentam tonalidades de pele distintas. Isso pode parecer um detalhe insignificante, mas a verdade é que é nas pequenas coisas que se faz a diferença. E neste caso, mostrou-se que a Eurovisão é de todos, e é para todos.

É óbvio que o racismo e a xenofobia não vão ser facilmente abolidos, nem no mundo em geral, nem na Eurovisão. Enquanto houver medo, rancor ou antipatia de um certo público, vai haver sempre receio de mandar alguém que é árabe, “preto” ou a encarnação de Satanás, porque no final o que realmente importa são os pontos e as vitórias. Mas nós, fãs, podemos fazer a diferença. Podemos continuar a abraçar-nos e a erguer bandeiras de países que nem sequer são os nossos. Podemos continuar a ir para as arenas e conhecer pessoas de países diferentes sem que tenhamos medo que eles nos roubem a carteira do bolso. Podemos continuar a amar o Jessy Matador, ou o Nadav Guedj ou a Stella Mwangi só pela música que eles fazem. Nós temos o verdadeiro poder de mostrar que aquilo que nos une vai além de questões idiotas e politiquices, e só assim podemos concretizar aquilo a que o festival se propõe desde o início: unir uma Europa diferente de muitas maneiras através da música.  


Nós somos contra a discriminação, e tu?:


Vídeos: Eurovision.tv
06/12/2015

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