Crónica ESC 2016: 'percebi que tolerava tudo pois as músicas eram todas más e eu contento-me com pouco'



Este ano escrevo esta crónica pouco mais de uma semana após o fim da Eurovisão. Já passou a fase de revolta, já passou a fase destinada a deprimir um pouco – se é que alguma vez chegou a vir, uma vez que esta vitória foi tão fácil e contra aquilo que queria que optei por tentar esquecer o que aconteceu. De uma maneira ou de outra, foi aquela que é a melhor semana do ano!

Talvez por não ter vencido um tema que possua uma boa mensagem para passar por todos nós, como tem acontecido nos últimos anos. Talvez por ter vencido uma canção que fala de guerra, de morte. Não de paz, não de amor, não de igualdade nem de liberdade. Apesar de gostar, desde a primeira vez que ouvi, da sonoridade de “1944”, continuo a achar que o conteúdo da letra da mesma vai contra as normas estabelecidas para a participação na Eurovisão. Digam o que quiserem, que não é política, mas sim histórica. Não, não é histórica a partir do momento em que retrata um problema passado que acaba por ser bem actual. E é incrível como este programa, mesmo depois de existir há meia dúzia de décadas, deixe passar estas coisas. E agora haverá quem esteja a pensar: “ah, mas a Eurovisão sempre serviu para invocar condições da actualidade desde sempre” pois, mas aí já terão de admitir o conteúdo político da canção, algo que não é permitido no festival.


Safa-se, enfim, a qualidade do instrumental, que não deixa de ser uma luz ao fundo do túnel que me diz que a Eurovisão não está perdida. Ganhou uma canção que tem uma língua que não o inglês e um instrumental que não segue os parâmetros de pops made in Sweden. Se, para os próximos anos, os países começarem a seguir esta linha será óptimo. Mas se optarem todos por reclamar das guerras ou problemas económicos que aconteceram/acontecem no seu território, não se queixem. Ingenuidade ou não, apaixonei-me pela Eurovisão em 2005 devido às canções e às respectivas performances. Para mim, é triste o desvio que se faz ao objectivo principal deste programa.


Falemos de música. Quando ouvi todas as músicas pela primeira vez achei que estavam todas ao mesmo nível, e até me arrisquei a dizer que gostava de quase todas. A nível pessoal, a Rússia destacou-se de todas as outras logo à primeira pois para além de ser o género musical de que mais gosto e que mais ouço diariamente, viu-se que iriam apostar em grande a nível visual. E fizeram-no, com uma das melhores atuações de sempre na história do festival.


A República Checa e a Polónia também se tornaram logo nas minhas favoritas, pela simplicidade e força das respectivas músicas sem necessidade de grandes apetrechos. A Bulgária e a Croácia, por terem instrumentais relativamente atuais, mantendo uma certa ligação ao seu país. A juntar à música da Arménia, da qual nunca fui grande fã, mas que acabei por ser totalmente arrasada pela performance, estes são os meus grandes destaques do ano, que, à excepção da Croácia, que desiludiu um pouco devido à indumentária escolhida, defenderam impecavelmente as suas canções e mereceram completamente os bons resultados obtidos – tudo bem que a República Checa ficou em penúltimo na final e teve null points do televoto, mas sendo este o ano em que este país marcou presença na final pela primeira vez na história da Eurovisão, não considero o seu resultado negativo.


Das semifinais, a edição de 2016 da Eurovisão é marcada pelo grande fracasso da Estónia, da Grécia, da Bielorrússia e de todo o bloco nórdico, algo que pode perfeitamente marcar o início de um período de viragem do festival para o leste. De todos os estes, só não concordei com a não-passagem da Bielorrússia, pois a modos que ninguém se esforçou tanto por melhorar desde a final nacional como Ivan, e da Estónia, que enfim, teve uma excelente música e uma voz competente a ficar-se pelo último lugar. A Grécia teve um dos temas e atuação mais fracos de sempre no seu historial de participações, a Islândia consistiu numa tentativa falhada de englobar numa participação algumas fórmulas vencedoras, não mereceram a passagem de todo. Alguém por quem sofri um pouco foi Kaliopi, que ao regressar ao palco da Eurovisão fê-lo com um tema bastante fraquinho, com a tão sua força com que interpreta as suas músicas, que acabou por não ser suficiente. Não há milagres.


Falemos dos big5, que de grandes só têm o nome. A Espanha concorreu com uma canção que só faltava chamar-se flop. Não era nada de jeito e o resultado acabou por ser justo e por provar que não é o inglês o que falta para se obter um resultado bom. Já "If I Were Sorry" devia ganhar o prémio para pior música sueca de sempre. A França acabou por ter um resultado surpreendentemente bom, depois de ser overrated até mais não, até conseguiu safar-se, mas bem longe da vitória. A Itália tinha uma música muito gira e likeable, mas acabou por ficar justamente classificada fora do top15. O Reino Unido, é a porcaria que se sabe, ano após ano, continuo sem perceber porque não desistem. A Alemanha... Enfim, o último lugar pela segunda vez consecutiva e muito, muito injustamente pois apesar da música não ser grande coisa, Jamie-Lee esteve irrepreensível na sua performance.


O que é certo é que após ver todas as atuações percebi que eu não gostava de todas as músicas por serem boas. Percebi que tolerava todas as músicas porque eram todas más e eu contento-me com pouco. Foi a explicação que encontrei para a quantidade de países que apostaram nos efeitos visuais como nunca, para tentar ofuscar os espectadores da fraca qualidade musical e/ou vocal – Azerbaijão, é para ti. Para além de serem quase todas medíocres, eram todas iguais. Pudera, se os compositores vêm sempre do mesmo sítio.

Falando das votações, porque de enaltecer e rebaixar músicas já estamos todos fartos, não posso deixar de falar no meu tão amado júri. Desde sempre que sou apologista de uma votação 100% televoto. Para o mal, pois sei que a República Checa não estaria na final pelo televoto, e para o bem, pois a minha favorita teria vencido a Eurovisão, é assim que acho que deve ser. E gabo a paciência da gente por este mundo fora a gastar o dinheirinho que tanto custa a ganhar numa canção que é a sua favorita e que acaba por ser retirada do pódio por causa de uns quantos leigos que passam o jury rehearsal a tirar selfies com duck face e a filmar ilegalmente os ecrãs. E só de pensar que a Austrália ia ganhando a Eurovisão por vencer na votação do júri com uma diferença abismal para o segundo classificado… Oh céus.


Ainda assim, engane-se quem ainda pensa que os painéis de jurados ainda votam nas baladas e mandam para baixo todas as músicas up tempo com uma intérprete de perna à mostra. Isto agora toca a todos sem dó nem piedade. O exemplo mais escandaloso disto é o da Polónia. Desde que “Color of your life” foi revelada que se viu que era uma das favoritas do público em geral, não é por acaso que teve o vídeo mais visto na conta oficial do Youtube da Eurovisão. A prova disso foi ter ficado em terceiro no televoto! Terceiro! Enquanto que na votação do júri ficou… em penúltimo. Engane-se sim a organização do festival se pensa que o seu público não se revolta com estas coisas e que não é uma razão válida para deixar de assistir a esta “palhaçada”, pois realmente não tem outro nome.


Quanto à organização, devo dizer que me surpreendeu bem mais do que em 2013. Só tive cada vez mais vontade de lá estar, nem que me contratassem para limpar o palco entre atuações! Os gráficos estavam excelentes. Inovaram e correu bem, apesar de os postcards em si serem bem fraquinhos. As aberturas e interval acts também foram óptimos, à excepção daquela repetição da “Heroes” que todos nós já tínhamos visto no Melodifestivalen, pois eles, mais do que ninguém, deviam saber que a selecção nacional sueca é vista em todo o lado! Os apresentadores estiveram impecáveis, pois fizeram de tudo! Apresentaram, cantaram, dançaram, com o humor sueco no seu melhor!


O desfecho desta edição do festival foi um pouco triste, não posso negar. Não deixam de ser 360 e tal dias à espera de um só dia que, afinal, não te deixa eufórica. Não deixa de ser mais um favorito teu que é aniquilado pelo júri. Não deixou de ser mais um ano em que digo que vou deixar de ver isto de uma vez por todas. Mas ainda bem que temos um ano para esquecer tudo isto e voltar a viver o espírito eurovisivo de novo! E cá entre nós, a Eurovisão sem revoltas é uma seca. Ouçam o que eu vos digo, pois passaram à final todos os meus favoritos e eu nem me senti normal. Em 2017 vamos para a Ucrânia (quer dizer, eu não vou) e acredito que ainda vá correr muita tinta até lá. Ainda vou ler muita hipocrisia nas redes sociais, ainda vão rolar muitas cabeças. Só que Eurovisão é Eurovisão, seja onde for o que vale é que a pessoa não tem de sair de casa para viver toda esta magia.


Para terminar, a todos os que não queriam que a Rússia ganhasse por não ser um país seguro, divirtam-se na Ucrânia! Aposto que vão amar.

Imagens: Eurovision.tv, Eurovision Gifs/Vídeos: Eurovision.tv
23/05/2016

2 comentários:

  1. Cara Catarina: O júri assegura que as pontuações reflitam um pouco a qualidade das canções. É por isso que existe. Não foi à toa que colocou a Rússia em 4º lugar. Que a Rússia tinha uma canção apelativa? Tinha. Que merecia ganhar? No way! Tenho pena da classificação da Republica Checa, que merecia ficar acima de muitas.

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  2. Caro Anónimo:

    O seu argumento contra a minha opinião até poderia fazer sentido para mim não fosse o caso Polónia e muitos outros, assim como Itália 2015.

    Obrigada pela sua opiniáo e preferência! :)

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