O Regresso da Dona Gertrudes: Terceiro texto - 'Sound of Silence' de Dami Im


Olá caríssimos leitores. Preparados para mais um dose de análise de grandes poemas que passaram pelo palco eurovisivo? Hoje trago-vos a segunda classificada deste ano. Diretamente do país mais europeu em competição (a Austrália, claro), chegou-nos "Sound of Silence". Leiam bem esta bela letra:


"Grown tired and weary brown eyes
Trying to feel your love through face time
Symphonies of dreams and highlights
Caught up in this crazy fast life
But baby, you’re not here with me

And I keep calling, calling
Keep calling ’cause

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence

Getting hard to break through the madness
You’re not here, it never makes sense
Tidal waves of tears are crashing
No one here to save me drowning
‘Cause baby, you’re not here with me

And I keep calling, calling
Keep calling ’cause

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence

I know I’m stronger and I’m capable
I know it’s all in my head
But I keep calling, calling
Calling, calling, oh…

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence

Now my heart awakes to the sound of silence
And it beats to the sound of silence
And it beats to the sound of silence"

Vou começar por constatar o óbvio: para uma música chamada "Sound of Silence" oiço demasiada gritaria. E continuando nesta lógica da constatação do óbvio: para gente que fala inglês, estes australianos repetem as mesmas frases até à exaustão. Mas deixemos os pormenores poéticos de lado porque afinal nem todos podemos ser o Camões e ter o mesmo esquema rimático ao longo de dezenas de estrofes.

Comecemos por aquela palavra que muita polémica deu. É mais que óbvio que este “face time” se refere ao software da apple. Se na Eurovisão se pode fazer referência a marcas? Citando uma rábula dos Gato Fedorento: “não se deve, mas pode-se fazer”. Haverá sempre aqueles que defende que este “face time” não se refere à marca, como há os que dizem que a música da Ucrânia deste ano ou a nossa de 2011 não têm conteúdo político. Se as regras fossem para cumprir, teríamos bem menos países a concurso todos os anos, mas eu já cá ando há muito tempo para perceber como é que isto funciona. Mas para os que acham que esta letra é perfeitamente normal e não faz referência ao software, por favor digam-me o que é que quer dizer “face time” naquele contexto (ou noutro qualquer) porque o meu inglês não me deixa  perceber isso mesmo.


Mas porque é que este faceTime é relevante para a história da música? Fácil. Estão a lembrar-se da frase “I keep calling, calling”? Claro que estão, afinal ela é repetida no mínimo umas mil vezes ao longo dos três minutos. Quem é que continua a ligar sem parar? Eu digo-vos: são os senhores de call centers do meu banco (que não digo qual é porque ninguém me pagou para isso) que continuam a achar que eu quero um cartão não sei do quê quando eu já lhes disse umas mil vezes que não estou interessada. Conclusões: esta canção é sobre, nada mais nada menos, que a história de alguém que trabalha no call center da apple. E o pior é que não deve vender nada, a julgar pela quantidade de silêncio que ouve. É uma pena porque as comissões da apple ainda devem ser altas. Quem não ouve silêncio nenhum desde que esta música ficou em 2.º lugar sou eu. A minha vizinha de cima não se cala um minuto a "cantar" isto. E sim, cantar está entre aspas propositadamente!


Notem que na segunda parte da letra ela começa a descrever os sintomas de grande parte das pessoas que trabalham em call centres. Nunca estive num, mas já vi belas reportagens na televisão. Não é que eu acredite em tudo o que vejo na televisão, mas também conheci pessoas que trabalharam neste universo. A rapariga fala em “madness”, depois diz que está a chorar e até que se está a afogar. Não querendo ferir suscetibilidades (se calhar é melhor os mais sensíveis não lerem a próxima frase): é provável que esse afogamento seja causado pelo facto de em muitos call centers não deixarem os empregados irem à casa de banho.

26/06/2016
Vídeo: Eurovision.tv

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