Crónica ESC 2017: "acabei por ganhar bem mais do que um título ou do que um troféu"


Passaram 11 anos desde que comecei a ver o festival. No ano passado fiz questão de dizer que os eurofãs conseguiram estragar o meu prazer a assistir ao certame por causa de toda a rivalidade Rússia vs Ucrânia, mas eu não imaginava que ia ter que agradecer a todo o povo português por ter estragado o meu prazer deste ano. Estou sinceramente com medo de saber o que vão fazer para o meu 12º ano, porque pelo que eu vejo a tendência é só para melhorar. Mas já lá vamos.


Muita coisa deu errado no concurso este ano mas a que salta mais à vista é com certeza o slogan. "Celebrate Diversity" era o que eles diziam. Entretanto passamos meses a assistir a uma guerra fria entre Rússia, Ucrânia e EBU, vendo um país a ser pressionado para quebrar as suas leis enquanto outro usava uma concorrente em cadeira de rodas para conseguir atrair pena - não interessa qual é a minha posição em relação a isto, mas nota-se que houve imensa aceitação de ambas as partes. Depois disso vimos imensa diversidade linguística, com 686496684784 canções cantadas em inglês (algumas em inglês macarrónico, mas fazer o quê?) enquanto apenas 4 canções foram totalmente cantadas numa língua diferente do inglês. Também houve imensa diversidade musical - sendo que metade das músicas foram cuspidas pela mesma máquina de fazer música. Não me julguem mal, não sou nenhuma erudita, mas não há necessidade de levar com tantas músicas que parecem todas iguais. Até os apresentadores demonstraram imensa diversidade! Porque não há maior diversidade do que três homens brancos, não é verdade? Se o Jon Ola Sand tivesse um lado de Albus Dumbledore no final da votação tinha dado exactamente mais 144 pontos à Bulgária por terem acertado no slogan da edição deste ano e eles tinham ganho.


Ainda sobre a realização, notou-se os efeitos do tempo que demorou para que tudo começasse a ser feito. A quantidade absurda de caras nos ecrãs foi resultado provavelmente de não haver tempo para pensar em algo mais elaborado. Os postcards, apesar de eu ter gostado deles, também me parece terem sido vítimas dessa falta de tempo, já que só uma pequena parte deles foi gravada na Ucrânia. Em relação a erros técnicos, admito que este ano não houve nada que me fizesse especial comichão (tirando o problema com a Estónia, mas não vou negar, não me fez comichão nenhuma na mesma). Já em relação aos opening acts e aos interval acts, acho que alguém se enganou a fazer a ordem das coisas, porque meus lindos, aquela abertura da primeira semifinal foi das aberturas mais pavorosas que já vi. Para compensar gostei bastante da abertura da segunda semifinal - aquilo sim, foi celebrar a diversidade! - e adorei a abertura da final. Em relação aos interval acts, tenho que preparar a carta de agradecimento para mandar à RTP por terem cortado tantos deles. Do que vi, não digo que tenha ficado entusiasmada, mas não considero que tenham sido maus. Por fim... os apresentadores. Antes de mais, parabéns aos apresentadores da red carpet... se mandassem currículo para a CMTV tinham emprego garantido. Em relação aos três homens brancos muito diversos, notei que aos poucos eles se foram sentindo mais à vontade e acho que fizeram um bom trabalho. Senti até pena deles porque me lembraram dos tempos em que andava no rancho e me obrigavam a ficar a sorrir durante um hora, portanto eu sei como isso faz doer os músculos da cara.


Em relação às músicas, não posso evitar começar por enaltecer o fantástico trabalho dos júris. Obrigada por colocarem a Finlândia fora da final. Obrigada por colocarem a Hungria fora de um top15. Obrigada por colocarem a Austrália em 4º lugar, quando quem esteve atento ao ensaio dos júris sabe que o Isaiah voltou a desafinar. Obrigada, obrigada, obrigada. Vamos fingir que ninguém viu essa troca de pontos entre Grécia e Chipre, okay? Vamos fazer de conta que os júris de Portugal, Bulgária e Itália não evitaram dar pontos aos concorrentes diretos, sim? Parabéns júris, o vosso trabalho este ano foi uma inutilidade. É muito triste quando se dá poder a um painel de jurados que supostamente é profissional e que vota pior que o público, que normalmente vota porque gosta (ou porque é vizinho) e não pela qualidade musical. 







A minha música preferida era sim a italiana e o que eu vi acontecer com esta música foi uma barbaridade. Pensar que a Suécia ficou na frente de Itália faz-me questionar porque é que eu vejo isto - que é algo que eu questiono todos os anos, mas eventualmente eu desisto desse drama. Mas não é só a canção italiana que foi injustiçada, porque falando em injustiça, temos aí a Arménia a berrar. Mas o que aconteceu? Também fizeram intervalo quando a Artsvik actuou, foi? Não consigo entender. E da Finlândia eu nem falo, porque não dá para falar, só para chorar, mesmo. A minha alegria de ver Portugal passar para a final foi um bocado para o buraco por ver que a Finlândia tinha ficado pelo caminho. Por outro lado, eu TENHO que falar do sucesso dos SunStroke Project. Eu era aquela pessoa que tinha a Moldávia em 7º lugar no top mas que achava que toda a gente ia odiar. Eles ficaram em 3º lugar, socorro! A minha felicidade foi enorme e acho o lugar mais que merecido. Agradável surpresa foi também o lugar da Hungria, que por algum motivo não conquistou os júris (esses, que também não entenderam o slogan deste ano) mas que foi justamente premiada pelo televoto. Ganhou o meu voto e não me arrependo nada de ter votado.


Quando em Março fui ver pela primeira vez o Festival da Canção ao vivo, não fazia ideia de que estava a assistir ao momento em que escolhíamos o nosso primeiro vencedor eurovisivo. E, mesmo não acreditando que iríamos ganhar, eu senti que havia uma energia que atravessava a audiência quando o Salvador estava em palco. Não queria dizer nada, afinal somos portugueses e amamos o que é nosso, mas que senti, senti. Então sim, eu aprendi a gostar de "Amar pelos Dois", mas foi interessante discutir o assunto com a pessoa que me ensinou a viver a Eurovisão - o meu pai. O meu pai nunca acreditou. Ele era daqueles que dizia que nem da semifinal passaríamos e pelo menos tiro-lhe o chapéu porque manteve a sua opinião até ao fim (esta última frase contém uma forte indirecta, espero que tenham entendido). Eu desconfio que ele só quis ver a semifinal comigo porque queria provar-me que tinha razão. Sim, infelizmente o meu pai encaminhou-me para isto mas já há alguns anos que o desinteresse dele é notório, o que nem dá para julgar. A coisa correu-lhe mal, mas acho que no coração dele, tal como em todos os nossos corações, apareceu uma certa esperança. Aí chegou o dia da final. O meu pai quis despachar-se a jantar porque queria ver. A minha mãe contou-me que quando era pequena os pais compraram uma televisão a preto e branco para ver a Eurovisão (não sei dizer se era mesmo a Eurovisão ou o Festival da Canção porque ela, tal como 95% dos portugueses - número inventado por mim - não sabe distinguir os dois). A minha mãe, que não perde nem um segundo a falar sobre a Eurovisão, estava a partilhar histórias comigo. Os meus amigos estavam prontos para ver nos locais mais estranhos, porque eles queriam mesmo era ver. Eu nem conseguia acreditar que pessoas tão próximas de mim estavam finalmente a viver esta paixão comigo! Pela primeira vez desde que me lembro vi a Eurovisão com os meus pais, os dois, e os dois aguentaram até ao fim. E no final, quando finalmente Portugal ganhou, eu chorei, mas não foi o eu chorar que fez o momento especial. Tornou-se especial quando olhei para o lado e o meu pai também estava com as lágrimas nos olhos. E eu percebi que se era especial para mim ver aquele momento ao fim de 11 anos, não conseguia nem entender como era especial para alguém que acompanha o festival há uns 40 anos. Alguém que viu Portugal ser espezinhado, mal tratado e ignorado pela Europa ao longo dos anos. Alguém que viu imensas vitórias serem-nos roubadas. Alguém que simplesmente já tinha desistido e que não acreditou, até ao último segundo, que aquele momento aconteceria. O meu pai chorou e eu agradeço ao Salvador por isso.


Portugal ganhou. Eu vi o troféu nas mãos do Salvador e não consegui acreditar. Portugal ganhou. Estava a tentar dormir e não conseguia acreditar. No dia seguinte revi a votação umas quantas vezes até acreditar. Em todas essas vezes ainda me apetecia chorar. Nunca a Eurovisão tinha estado tão na moda em Portugal. De repente já apareciam por aí tantos campeões da posta de pescada que eram contra a Austrália, contra os Big5 (e eles nem sabiam bem o que era isso, mas acharam por bem ser do contra) e contra todo e qualquer adereço que não fizesse parte da actuação portuguesa. Acho que até quando os outros concorrentes respiravam havia algum português a criticar. Felizmente tive a sorte de estar rodeada por pessoas que não têm uma pedra no lugar do cérebro e que, mesmo que não estivessem habituadas às andanças eurovisivas, fizeram questão de ouvir as músicas todas, perguntar sobre o que não entendiam e perceber que havia mais para além da prestação do Salvador. Eles vibraram comigo, apoiaram outras músicas e eu sinto que estavam realmente no mood. Eles votaram noutras músicas, foram investigar algumas coisas sobre o passado do concurso, tiraram as músicas da net para colocar na playlist e foram os primeiros a dizer que no próximo ano querem ir ver ao vivo. No final das contas, acabei por ganhar bem mais do que um título ou do que um troféu que eventualmente vai aparecer à venda no e-bay


No próximo ano teremos Eurovisão em Lisboa (Lisboa? Porto? Ilhas Desertas?). Eu planeava ir assistir pela primeira vez ao vivo no próximo ano, mas a experiência vai ser ainda mais gratificante. "Amar pelos Diós" (é, os apresentadores ucranianos até fizeram alusão ao 13 de Maio) é agora o novo hino nacional. Enquanto isso eu já estou a vomitar Eurovisão, com o tanto que se fala nisto na televisão, com tanta foto do Salvador nas redes sociais e com tanto disparate que leio. Óbvio que fico feliz de ver os portugueses finalmente a interessarem-se no concurso, mas não há paciência que aguente tanta mania de ser superior. Deixem lá a saga do fast food e dos covers dos oportunistas que precisam do Salvador para relançar a carreira. Enquanto perdem tempo a escrever disparates, aproveitem esse tempo para fazer uma macumba para que no próximo ano apareçam mais idiomas e mais estilos musicais. Façam macumba para que o pop sueco perca a sua força. Peçam pelas pimbalhadas gregas e espanholas, peçam pelo rock, peçam pelos sons tradicionais. Seja com foguetes ou sem foguetes, cavalos, macacos ou baleias. Afinal, uma Eurovisão que tem no seu top5 um Salvador Sobral, um Kristian Kostov, uns SunStroke Project, uma Blanche e um Robin Bengtsson é uma Eurovisão que aceita, aprecia e premeia diferentes géneros musicais e diferentes apresentações em palco! E se não quiserem pedir por nada disto, peçam por algo útil para fazer nas vossas vidas, porque se perdem tanto tempo nas redes sociais a criticar estas coisas é porque andam com demasiado tempo livre. Agora vou escrever a minha proposta para enviar à RTP a pedir que o ESC 2018 se realize no meu quintal. Namasté.




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