Crónica ESC 2017: "Especialidade da casa: Bife Tártaro Sobral"

Há coisas que sempre pensei nunca chegar a ter a oportunidade de viver. Nunca pensei que o governo português voltasse a ser estabelecido na esquerda, nunca pensei ver a Telma Monteiro a trazer uma medalha olímpica para Portugal, nunca pensei ver a selecção portuguesa de futebol masculino a ganhar o quer que seja e nunca pensei, em toda a minha vida, ver Portugal a ganhar a Eurovisão.

Vivemos em novos tempo, meus amigos. Em 2017, não fomos 500 mil gatos pingados a viver a Eurovisão sozinhos e a apoiar o nosso representante de corpo e alma. Em 2017, a SIC e a TVI não foram os canais mais vistos no dia da final da Eurovisão porque muitos portugueses preferiram não ver a novela nessa noite.

A verdade é que este foi o momento histórico nacional mais importante para mim. Lamento Éder, mas o orgulho que sinto neste momento não se pode sequer comparar à minha alegria de te ver marcar golo.


A Ucrânia está de parabéns


Sabíamos, desde o início, que ia ser um desafio muito complicado para a Ucrânia organizar um evento como a Eurovisão outra vez. Não só pela sua magnitude, mas pela a necessidade de constante inovação e de conjugação bem-sucedida de culturas extremamente diferentes. Muitos estavam convencidos que a organização ucraniana ia resultar num desastre… muitos estavam errados.

O que está sempre implícito na nossa mente é: ninguém nos pode dar a qualidade de entretenimento que os suecos nos deram em 2016.

Claro que os apresentadores ucranianos não chegaram sequer aos calcanhares de Måns e Petra, mas isso não deverá ser razão para não lhes atribuir os devidos créditos. Oleksandr, Volodymyr e Timur foram extraordinários com o guião de muito pouca qualidade que lhes puseram nas mãos. O humor caiu mal porque o que estava escrito nas páginas era fraquíssimo.

Claro que os interval acts nunca chegarão aos pés de Love Love Peace Peace. Eu agradeço que a organização nos tenha exposto aos artistas nacionais, mesmo que esses momentos tenham fragmentado a coerência do espetáculo.
Com todos os percalços e negatividades, a Ucrânia conseguiu concretizar uma visão desafiadora e conseguiram que as duas semanas de festival corressem sem dramas de organização (se excluirmos a situação complicada com a delegação russa). 

Parabéns, Ucrânia. 

Os grandes vencedores não-portugueses


A história de maior sucesso desta edição tem um nome: Blanche. Uma história de evolução que me deixa feliz além-palavras. A jovem belga de 17 anos, foi considerada uma das favoritas à vitória quando a delegação revelou a canção que iria representar a Bélgica em 2017.  No entanto, no momento em que Blanche começou a pré-temporada de concertos, o favoritismo desapareceu por completo. Esta rapariga muito jovem, com uma voz incrível e com a canção mais vendida do ano, não conseguiu lidar com a pressão e teve várias crises nervosas. Começaram a chover críticas por todos os lados e os apostadores tiraram todo o seu dinheiro desta aposta.

Durante as duas semanas de preparação, conseguimos ver uma evolução extraordinária! Começámos a ver mais confiança e um maior à-vontade para lidar com a imprensa.

Chega a primeira semifinal e é impossível não sentir um eterno orgulho nesta história de sucesso. Blanche mal conseguiu conter o seu sorriso perante os milhares de fãs que a acompanharam na arena de Kiev. Chega a final, e estava certo que Blanche iria trazer outro Top 5 para o seu país e iria transportar o ESC 2017 ao colo com o seu sucesso no iTunes.  
O júri tentou afundar este barco mas estávamos cá nós para o salvar!

Parabéns, Blanche! Parabéns, Bélgica!



Se me dissessem que a Moldávia ficaria em 3º lugar na edição deste ano, eu não aguentaria o riso. A classificação dos Sunstroke Project só mostra que há um grupo gigante de televoters que vê a Eurovisão pelos Baila El Chiki Chiki: por puro entretenimento. Fico feliz por ver a moldávia a conseguir a sua melhor classificação, mesmo que ache que a canção não merecia sequer estar na final.


Prevê-se que a Bulgária se torne numa importante super-potência eurovisiva nos anos que se avizinham. Kristian Kostov teve um merecido 2º lugar e, talvez, em qualquer outro ano em que um Salvador Sobral não estivesse no mapa, a Bulgária levaria o troféu. O talento deste rapaz é algo de fenomenal e ele tem um grande futuro pela frente. Será que o voltamos a ver na Eurovisão? Se o seu mentor, Dima Bilan, lhe der alguns conselhos, garanto-vos que voltamos a ver o Kristian Kostov neste palco e, desta vez, para roubar o 1º lugar.


A Hungria conseguiu o merecido Top 10. Mais do que nos anos anteriores, este ano foi mesmo a celebração de diversidade. Celebração de línguas diferentes, raças diferentes, histórias diferentes, sons diferentes e visuais diferentes. A Hungria merecia o Top 10 e fico muito feliz de ver que, tanto o júri como o televoto, apreciaram aqueles 3 minutos de magia cultural.


Os que não mereciam louvor


Querem saber o que me chateia? Ver a Suécia a entrar no Top 5 com um PVC qualquer. Frans não merecia e Robin Bengtsson, com toda a certeza, não mereceu. Quais foram as almas pobres que meteram a Suécia à frente da Itália? Da Hungria? Da Roménia? Podemos começar a avaliar o nosso discernimento e deixar de votar na Suécia quando eles não merecem o voto? É isso que lhes dá o poder de que eles abusam todos os anos.


Eu defendo a participação da Austrália com os dentes afiados. A Austrália tem trazido imensa qualidade para o festival e, se a sua participação tem um impacto financeiro positivo, não há razão para criticar. No entanto, este ano aconteceu algo que não tinha acontecido nos dois anos passados porque a Austrália não nos deu… excelência? O standards com que avaliamos a Austrália são muito elevados e, eventualmente, eles haveriam de nos falhar.

Isaiah Firebrace é um vocalista fenomenal que nunca falhou publicamente antes de pisar o palco da Eurovisão. Quanta é a surpresa quando este jovem tem uma prestação horrenda na primeira semifinal! Mas foi-lhe dada uma nova oportunidade para surpreender na final e, sem ser tão horrenda como na semifinal, a prestação vocal voltou a deixar muito que desejar. Depois disto tudo, como é que a Austrália conseguiu ficar no Top 10, mesmo tendo o televoto consistido em apenas 2 pontos, vindos da Dinamarca? “É tudo política!”, diz o meu pai. E, neste caso, ele tem toda a razão.

Continuo a defender a participação da Austrália com os dentes afiados.






Os grandes perdedores


Com toda a sinceridade? A Áustria não merecia estar na final. Com uma canção tão medíocre, os austríacos mereciam ir para casa logo na terça-feira, em vez de ocuparem o lugar da Estónia ou da Suíça. Ninguém ficou surpreendido quando os 0 pontos do televoto caíram sobre a Áustria.

Carisma não vos leva, isoladamente, ao topo. Não tragam canções fracas feitas para serem sucessos na rádio porque, depois de todo o festival, esta canção não é nem irá ser um sucesso na rádio. Até as rádios sabem distinguir irrelevância musical de música boa feita para as massas.


E os 0 pontos do júri? Outra escolha óbvia: Espanha. Depois da selecção nacional mais ridícula do ano, a Espanha merecia ainda pior do que último lugar. Os nossos hermanos trouxeram a pior canção do ano e, de certeza, não esperavam melhor lugar do que o último.
Eu senti o karma a fazer maravilhas durante a atuação de Manel Navarro. Fora a corrupção de que o festival tem sido acusado por associação a situação como o que aconteceu  Objetivo Eurovisión! A situação abre de novo a questão se faz algum sentido haver um júri profissional nas selecções nacionais… não deveria ser o povo que vai ser representado a ter 100% da escolha e responsabilidade? O karma, meus amigos, é tramado.

Os choques


No último mês, a Arménia ocupou um lugar seguro no meu Top 3 por ser a canção mais inovadora e visionária do ano. E não é que o televoto afundou “Fly With Me”? Não é surpreendente que as pessoas não estejam receptivas a algo que parece que veio de 2025 mas tinha esperanças que o bom senso geral pusesse a Arménia num bom lugar. 18º lugar?! Surreal. 



O Reino Unido esmerou-se de uma maneira inédita, nunca antes vista. O melhor stagging do ano e uma das vocalistas mais impressionantes do ano. O buzz à volta dos ensaios de Lucie Jones levavam a crer que o Reino Unido ia conseguir a sua melhor classificação da década. Um Top 10 era mais que merecido e o júri concordou, colocando o Reino Unido em 10º lugar. No entanto, o televoto colocou esta canção em 20º lugar. O porquê? Brexit? O que podem mais eles fazer?  Eu não sei. É-me complicado perceber. 


De vez em quando, acontece algo que relembra os eurofãs de algo muito importante: A Eurovisão é uma competição imprevisível.

Durante meses e meses, todos tínhamos a certeza que não haveria nenhum cenário em que a Itália não ganhasse a Eurovisão em 2017.  Tínhamos a certeza que o macaco iria conquistar o coração do júri e do espectadores.

O que aconteceu, então?

Aconteceu algo que não é inédito na história da Eurovisão. Nem sequer é inédito na história das participações italianas. A performance simplesmente não resultou.  A canção tomou tal dimensão que, a meu ver, atraiçoou o artista italiano.  Francesco não esteve no controlo da canção como nós estávamos habituados a ver. Visualmente, foi muito fraco- resultado de várias decisões erradas por parte dos designer gráficos. Não houve magia.

Chamem-me de louca, mas Occidentali's Karma não foi feita para um palco eurovisivo. 

A bubble eurovisiva é cada vez mais enganosa. Os telespectadores casuais não viram potencial na canção italiana. E ainda bem, porque este plot twist tornou a edição deste ano tão mais interessante.


O falso patriotismo português


A Eurovisão não é para todos, eu sei. Nem todos vêem o encanto de ver e ouvir música pop-étnica-fogo-de-artifício-sueco durante 3 horas.  Os portugueses, com certeza, nunca viram o encanto porque este festival tinha, em anos passados, tanta relevância como a feira de chocolate de Óbidos.

Nunca sentiram motivação para mandar mensagens positivas à Suzy, que tão bem nos representou e que foi adorada pelos eurofãs. Não sentiram a motivação para escrever notícias sobre a Leonor Andrade, que tanto foi criticada pelos estrangeiros, mas que fez tudo o que podia para deixar Portugal orgulhoso. Não sentiram a motivação para agradecer à Filipa Sousa por levar um pouco da nossa cultura para cima do palco de Baku. Onde estavam vocês nestes momentos? Porque é que, pela primeira vez, o meu feed das redes sociais esteve cheio de patriotismo?  Porque é que a Eurovisão só vos interessa quando estamos no topo?

Para todos os que, como eu, estão muito desconfortáveis com esta hipocrisia portuguesa, vamos focar-nos na parte positiva de todo este circo: o país abriu os olhos para a Eurovisão no dia 13 de maio de 2017. A negligência acabou.


O nosso salvador

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A minha fé na atitude da RTP perante a Eurovisão sempre foi nula. Não se enganem. A minha fé na atitude da RTP perante a Eurovisão continua a ser nula. Não se atrevam a me dizer que a RTP está de parabéns pela vitória do Salvador ou que, realmente, estavam errados sobre a qualidade do Festival da Canção deste ano. Vocês não estavam errados: o Festival da Canção foi a mesma desgraça que é sempre. Os compositores convidados foram, mais uma vez, os compositores errados e a qualidade do festival foi ridiculamente baixa, seja para um programa televisivo ou para um evento musical de entretenimento.

A vitória do Salvador Sobral na Eurovisão não deve colocar qualquer mérito imerecido a esta emissora que é ainda um monopólio de dinossauros.

Não vou chamar a vitória de Portugal um acaso porque Portugal foi o claro vencedor do festival mas todo o mérito tem de ser colocado nos irmãos Sobral. A RTP teve sorte que esta dupla tivesse aparecido e nós, eurofãs portugueses, também tivemos sorte mas vamos lidar com azar no futuro próximo. A vitória de uma canção como “Amar Pelos Dois” encheu o peito da emissora: “Bem vos dissemos que isto tinha de ser em português e que não podia ser um pop qualquer! Isto é que representa a música portuguesa!”- consigo ouvir na cabeça de Júlio Isidro.  Mas será que representa? Mesmo?

A canção que representou Portugal tem um espaço reservado na minha adoração até o dia em que me cremarem, mas, nem por um segundo, me podem convencer que “Amar Pelos Dois” representa a música portuguesa, a música que os portugueses ouvem.

Quantos de vocês tinham o novo álbum de Luísa Sobral antes do Festival da Canção? Eu respondo: uma minoria quase insignificante porque se olharem para os charts em Portugal, não é Luísa Sobral que vão encontrar. Não é Nuno Feist. Não é Márcia. Não é Rita Redshoes. Não é Samuel Úria. Não é João Só.  Sem retirar nenhum mérito destes artistas formidáveis (nos quais eu já gastei um bom dinheiro para ver ao vivo múltiplas vezes), não são estes nomes que o português casual-não-pretensiosamente-chamando-se-music-expert ouve. Sabem quem são os nomes que se encontram constantemente nos charts? Agir, Nelson Freitas, D.A.M.A…. Por indução lógica, esse é o tipo música que representa o povo português. Não deixem que os organizadores profissionais de medleys dos anos 70 vos convençam do contrário.


Então como é que isto aconteceu? 
Como é que Portugal ganhou a Eurovisão? 
Como é que Portugal bateu o record de valor de pontos alguma vez atingido? Como é que Portugal bateu o record de mais 12 pontos atribuídos de sempre?




Vamos começar pelo início: a maravilhosa Luísa Sobral. Sabem qual é o record que Portugal atingiu de que ninguém fala, mas que demonstra, da maneira mais clara, a excelência deste país quando comparado com todos os outros? A canção vitoriosa portuguesa foi a primeira canção- escrita unicamente por mulheres- que ganhou o Festival Eurovisão da Canção.

A Luísa Sobral é uma compositora excelente e, em todo o lado, encontrarão louvor à sua composição, portanto, eu vou escolher alternar o discurso um pouco. Melhor do que ninguém, esta artista viveu o festival. A humildade com que respondia a todos os entrevistadores impaciente pela chegada do irmão, a curiosidade com que falava sobre as canções participantes e a forma serena como lidou com todos os imprevistos em Kiev, conquistou por completo o público eurovisivo. Estamos habituados a ver diplomatas ensaiados e jogos de marketing em toda a preparação para o dia do espectáculo e a Luísa Sobral, assim como o irmão, mostrou que é possível sobreviver à experiência sem sair do carácter genuíno e da humildade intrínseca.

Obrigada, Luísa Sobral. Devemos-te uns quantos jantares.







"Aquele que tira alguém de uma situação crítica ou que se arrisca a perder a vida [...]" 

Salvador é mesmo o nome apropriado. É complicado explicar o que os eurofãs portugueses de longa data estão a sentir neste momento. Toda a negligência que tivemos de lidar durante as últimas duas décadas.
Ganhámos com uma canção que, provavelmente, nos faz a todos muito orgulhosos. Uma canção simples mas carregada de emoções que, mesmo sendo cantadas numa língua minoritária europeia, transpareceram durante uma das melhores e mais emblemáticas performances de sempre na Eurovisão.

Milhões de pessoas criaram uma conexão com "Amar Pelos Dois"... como é que isso poderia não nos deixar em êxtase?
Milhões de pessoas pegaram no seu telemóvel para dizer "Entre macacos e efeitos especiais, o rapaz estranho e talentoso a cantar aquela canção lindíssima foi o meu momento favorito da noite".



Dia 13 de Maio de 2017 fica marcado por muitas razões, mas a mais importante: venceu o bife tártaro. 

Vencemos com uma canção a anos-luz de ser considerada uma canção festivaleira, cantada na nossa língua por um artista de que tenho imenso orgulho. Finalmente vencemos e foi sem comprometer a essência portuguesa.

Poderá este ser um ponto de viragem para o consumo de música em Portugal? Será que vamos começar a ver uma valorização de diferentes tipos de compositores no Festival Eurovisão da Canção?
Não vos sei responder porque não tenho as respostas.

A única certeza que tenho é que ver o Salvador a levantar o troféu foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Foi um momento brilhante.

Vamos banhar-nos em glória antes de começarmos a pensar no inferno que vai ser organizar o Festival Eurovisão da Canção 2018. Isso é um problema de amanhã.

Obrigada, irmãos Sobral! Um obrigada do fundo do meu coração.



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