ESC 2017: comentários à primeira semifinal


As semifinais. As maravilhosas, dolorosas, injustas, decepcionantes semifinais. Os momentos de nervosismo ao ver as canções que temos adorado e glorificado nos últimos meses a cair à mercê de imprevistos e más sortes. Se têm corações fracos deverão afastar-se da televisão nestas duas noites de semifinais porque o meu já têm um défice só de ver a Polónia a passar outra vez para a final. 



Mas antes disso… vamos congratular os anfitriões por tudo o que fizeram bem e escrutinar os 90% restantes.
Eu fui das primeiras a defender a capacidade que a Ucrânia tem de organizar um evento desta magnitude desde o momento que vi a Jamala com as mãos no microfone translúcido. Se continuar a ser verdade que o país anfitrião nunca tem muito poder de decisão no que toca à organização do espetáculo, então que todas as minhas críticas se assentem no Björkman, que fica parece oportuno. 
Estamos em consenso que assistimos à pior abertura da Eurovisão desta década? Estamos em consenso que a exposição cultural nos primeiros cinco minutos foi ridiculamente ineficaz? Estamos em consenso que já foi provado que os eurofãs não apreciam rap?
Tornaram tão fácil à audiência que tinha já o pé de fora de mudar de canal e ir ver a telenovela. As aberturas têm de ser memoráveis! Porque raio não puseram 1944 a abrir a Eurovisão? Este é considerado o maior espetáculo de música na europa, mas as conversas executivas devem ter sido mais ou menos:

“-Que artistas já temos assegurados para o espetáculo do intervalo?
- Jamala.
- E mais?
- Jamala xbis.
- Mais algum?-
-Ouvimos que a Jamala está disponível.”



O leque de opção certas de entretenimento era gigante. Preferíamos ter tido a Verka a abrir a Eurovisão. Mas tenho de expressar uma eterna gratidão pela apresentação da nova canção da Jamala, que é fenomenal e visualmente é de tirar o folgo.
Concordamos que a organização do espetáculo secundário foi muito pobre. Talvez a execução do espetáculo principal foi bem-feita? O trabalho de câmara e a escolha de ângulos foram dos piores que já presenciei. Talvez os apresentadores foram bem escolhidos? Bem, talvez… eu não percebi se eles tinham piada porque ainda não falo patriarcado. Talvez o palco seja um dos melhores da década? Outro talvez. Nunca iremos saber porque a equipa de design esqueceu-se de usar 50% da potencialidade do palco.
Perguntam-me, “De que é que tu gostaste, afinal?!” … Os postcards foram muito interessantes e, sinceramente, a música foi boa.


Para abrir a competição tivemos a potência eurovisiva, a Suécia, e eu sinto-me ligeiramente enganada. Prometeram-nos um começo no backstage. E backstage, meus amigos, significa “por de trás do palco” não “rampa de entrada para o palco”. E a atuação foi mais do mesmo do Melodifestivalen: repetitivo, homens jeitosos, repetitivo, olhares predadores, repetitivo. Para surpresa de ninguém, as passadeiras não resultaram tão bem num palco maior. Não foi extraordinário e não foi uma boa abertura. 


E aqui vem a Tako (e a sua trunfa) mostrar ao Robin como se conquista um palco sem uma fórmula plástica. Uma actuação que me surpreendeu imenso porque, pela primeira vez, não pareceu uma gritaria colada com um quarteto de cordas. Houve emoção, pirotecnia e uma performance vocal que me deixa sem crítica nenhuma. 


As espectativas do meu coraçãozinho inocente crescem quando ouço que a austrália vai subir ao palco. Os ensaios não foram bons, a canção é medíocre, o stagging é resultado da lei de menor esforço, mas, com um dos melhores vocalistas do ano, não há de ser menos do que fantástico, certo? Errado. O pior da atuação foi mesmo a parte vocal. E o meu coraçãozinho caiu-me aos pés quando ouvi o Isaiah a desafinar pela primeira vez em todo o sempre. O que é que correu mal ali? O rapaz estava nervoso, é certo. Mas alguém vindo da experiência do The X Factor deveria conseguir lidar com a pressão e com este tipo de situação. Mesmo assim, fico contente que a Austrália tenha obtido a qualificação porque ele está no inicio de carreira e porque sinto que este vocalista não pode falhar duas vezes. Se eu estiver errada, quero que a Austrália volte para o seu continente porque não é bem-vinda quando traz decepções! 


A albanesa Lindita teve a sua melhor prestação de sempre em cima daquele palco. A performance vocal é irrepreensível. O look da cantora foi uma decisão fatal e os gráficos não ajudaram à festa. 


A Bélgica. A grande Bélgica. Este país traz a minha canção favorita da edição deste ano e tem sido muito difícil defender o potencial desta canção por uma razão: Blanche. Esta jovem não tem só um timbre vocal muito especial, mas parece que está sempre à beira de um esgotamento nervoso. “Será que ela vai começar a chorar?”, diz a minha mãe, “A rapariga vai vomitar, não vai?”, diz o meu pai. Não, meus progenitores, nada disto se concretizou. A Blanche, ao contrário do que mostrou nos ensaios, estava um pouco confiante. Sorriu por três segundos e que alívio foi ver que a minha favorita era uma qualificação garantida. Na final, a minha expectativa está num sorriso de cinco segundos.


É impossível não sentir no ar uma energia diferente quando anunciam que Montenegro é o próximo país a atuar. Uma atuação muito divertida que ajudou a neutralizar as canções mais pesadas que vinham a seguir..
Muito obrigada, Slavko. Nós precisávamos de ti e fico eternamente grata à tua persona por seres a imagem irreverente que distingue a Eurovisão de tudo mais.


Vamos todos inspirar e expirar durante um bocadinho para podermos partilhar racionalmente o nosso sentimento perante esta injustiça. Vamos tentar não usar agressividade física nem onomatopeias.
“Blackbird” merecia mais. Norma John mereciam mais. Quando me apercebi que havia um lugar na final e que a Bélgica e a Finlândia ainda não tinham sido chamadas, veio o sangue todo para este cérebro que transpira uivos de tristeza. Uma das canções com mais qualidade em todas as quarenta e três canções. Uma apresentação de vencedora. Um ambiente mágico. Uma classe inigualável.
Desde o início que previ que Norma John iriam ser a Gréta Salóme de 2017 mas não estava psicologicamente preparada para esta injustiça.


Será o dark horse de 2017? O Azerbaijão foi visualmente muito inovador, mas com os planos de câmara usados, a magia ficou a metade da sua potencialidade. Não é uma apresentação vencedora.


Conseguem ouvir os aplausos para o vencedor da Eurovisão 2017? E eles gritam “E foi o Salvador que os [censurado]”. Foi só a mim que veio a lágrima ao olho? Fui só eu que agarrei com mais força a bandeira? Sou só eu que quero gritar nas redes sociais “Sim, eu sou do país do Salvador!”. Que atuação magistral, que artista magistral. Mereceu receber o maior aplauso da noite e merecerá o maior aplauso da final.


Olhem, chegaram os hambúrgueres! A Grécia traz-nos plástico reciclado, cantado por uma cantora com uma cara esculpida pelos deuses lá do país deles e uma canção feita de PVC. Visualmente não foi mais do que “não me faz querer arrancar os olhos como a Eslovénia”. Merecia passar à final? Pois está claro que não.


A activista pelos direitos dos animais traz-nos pombas brancas, que foi um efeito visual muito eficaz, e uma actuação morna. Continuo a achar que não é canção que mereça a final e acho que a Polónia vai começar a ser a minha maldição.


Chega o saxofone: a Moldávia era uma certeza na qualificação. É engraçado sem ter mérito musical nenhum. A actuação foi bem conseguida e a coreografia foi bem capturada. 


A islandesa Svala pareceu estar sempre no ângulo errado. O escândalo seria se a Islândia passasse à final com uma actuação tão pouco memorável.


A República Checa pegou numa canção  medíocre e transformou-a numa actuação de extrema classe e visualmente muito eficaz, com tons roxos e amarelos. Parabéns, República Checa, nós apreciamos o teu esforço e volta para o ano!


A actuação do Chipre foi uma autêntica desgraça. O conceito foi mal pensado e mal-executado, não resultou no ecrã pequeno. Porque é que vamos ter de aturar aqueles três minutos infindáveis de novo na final? O eterno mistério.


A Arménia não é uma das favoritas à vitória por acaso. O mais surpreendente foi a perfeição vocal de Artsvik. Com a junção do fumo rosa perfeito, dos gráficos gréfico, da pirotecnia perfeita, da coreografia perfeita, dos close-ups quase-perfeitos e de uma canção excelente, será difícil ver a Arménia fora do Top 5 na final.


A Eslovénia traz-nos menos de coisa nenhuma, ao que nós podíamos ficar indiferentes: traz-nos um péssimo performer com olhares predatórios, uma canção humanamente impossível de se suportar e uma coreografia de palco dramática. Esta é a receita do desastre e do último lugar das votações.


A Letónia- outra injustiçada. Não tem comparação com a injustiça da Finlândia, mas é impossível não ter comichão a ver uma canção tão moderna e tão cativante, com um visual tão distintivo e tão bem conseguido, a ficar-se pela semifinal.


Como sempre dizemos: de injustiças se faz a Eurovisão. É difícil ver canções como a Finlândia a ficarem para trás e hoje durmo com o coração mais pesado. Mas este coração pesado pode ainda amar pelos dois e está prontíssimo para ver o Salvador Sobral a arrasar com os plásticos gregos e com mediocridades chiprenses na final. Até lá, temos ainda que passar pela mais imprevisível das semifinais.






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