Crónicas ESC 2018: "Music is also Fireworks!"


13 de maio de 2017, no discurso da sua vitória, Salvador Sobral disse "Music is not firework. Music is feelings". Pareceu ter sido dado o mote para o festival do próximo ano, em Portugal. A Europa, ou provavelmente Portugal, quis transparecer que estava na altura de dar uma nova roupagem ao certame e que os sons eletrónicos, contemporâneos não eram a música dos sentimentos, a música da Eurovisão. 

Portugal assistiu ao "movimento dos expert" em Eurovisão. No momento em que ninguém dava nada pelo Festival da Canção ou pelo festival internacional, de um momento para outro, todos tinham um mini-curso sobre o Festival Eurovisão da Canção e a massa crítica cresceu. Presenciámos um interesse enorme de diversas cidades em hospedar o festival, estando à partida, mais que decidido (pelo menos entre os fãs), que Lisboa seria a cidade escolhida para o primeiro Festival Eurovisão da Canção em Portugal.




"All Aboard!", foi escolhido como o slogan deste ano e inevitavelmente o tema Mar estaria associado ao festival. A edição mais low-cost dos tempos modernos do eurofestival, deixava a expectativa para o que seria feito pela produção portuguesa. O pior previa-se, a aliar ao mote dado pelo Salvador, o palco não teria a tão famosa LED wall, tecnologia que permite a representação de imagens durante o espectáculo. Mas mais uma vez Portugal provou ao Mundo que sabe receber e organizar! E que Festival! O palco saiu excelente, as músicas de introdução, ou de interval act foram bem escolhidas. Os postcard foram bem realizados, embora tenha curiosidade em saber qual o critério para a escolha da filmagem de certos locais. Não vou compreender o argumento "Lisboa é que paga o festival, Lisboa tem de ter mais", sendo que um dos patrocinadores principais do Festival é... o Turismo de Portugal.



No geral as apresentadoras foram uma surpresa! Momentos após a revelação de quem apresentaria o festival, as críticas fizeram-se ouvir, fosse pelo facto de serem quatro mulheres, ou por terem um inglês duvidoso. Começando pela apresentadora que esteve menos bem, Catarina Furtado: quem assistiu aos ensaios, não esperava que ao vivo houvesse algumas coisas menos boas pela parte da Catarina, falhas de texto, gafes, podia ter sido excelente. A "nossa" atriz americana, esteve impecável, pouco ou nada se pode dizer de Daniela Ruah que foi bastante competente  durante todos os espetáculos. Sílvia Alberto, foi uma agradavél surpresa pelo à vontade que demonstrou e o seu inglês que era o mais temido, acabou por ser suporável. O destaque, terá que ir uma vez mais para Filomena Cautela. Mesmo tendo um papel de "menos destaque", Filomena stole the show completamente. Sugiro que nos próximos anos, as apresentadoras sejam unicamente a sueca Petra Mede e a portuguesa Filomena Cautela.


Talvez esteja a ser parcial, mas este ano a qualidade musical esteve bastante alta. Assistimos à mais difícil semifinal de sempre no concuro, basta ver que as três primeira classificadas na final, estavam nesta semifinal. No dia 8 de maio, era uma tarefa quase impossível escolher as 10 músicas que certamente iriam passar à final. 

Assistimos à primeira não passagem à final do Azerbaijão que se fez representar com quatro coristas portugueses a acompanhar Aisel, intérprete azeri. Pessoalmente custou-me ver a não passagem da Arménia, Grécia, Macedónia e Suiça, mas com tão poucos lugares disponíveis, era complicado caberem todos. Por outro lado, a passagem da Irlanda, número dois no meu Top, deixou-me feliz com os resultados. Assistindo ao vivo e tendo Israel e Chipre na mesma semifinal, era difícil  escolher aquela que podia tornar-se a vencedora do festival.



A segunda semifinal, dita a menos forte deste ano, também acabou por tornar-se uma surpresa. Fosse pela passagem da Moldávia e Sérvia (Really?) ou pelo primeiro afastamento da final por parte da Rússia e  Roménia. Mas de acessível, esta semifinal também teve pouco. Onde está o apuramento da Malta ou da Letónia? Tal como na primeira semifinal, havia um país que tinha um gosto especial que passasse à final e que até tinha muitas certezas que conseguiria, a Eslovénia. Quebrando as teorias, pela primeira vez, não foi um país que estava na semifinal juntamente com a Polónia, que ganhou o festival. 






O sorteio relativamente às parte da final em que cada país atuaria, antevia uma primeira parte apenas com músicas candidatas à vitória, mas foi o contrário. A partir da música alemã, número onze no deslife, assistiu-se a um completo round de músicas que figuravam como prováveis vencedoras do festival. 

Nesta final, tivemos nove músicas cantadas numa língua que não o inglês, sendo que quatro delas conseguiram ficar no lado esquedo da tabela, no topo 13 da classificação. E falando em classificações, o momento mais expectante e engraçado da noite, foi mesmo a votação. Ao contrário da unanimidade que se verificou nos votos do júri no ano passado, este ano caracterizou-se pelo diversidade de países que receberam os famosos 12 Pontos. Alguém me mostre que a Áustria seria a vencedora do júri antes da final. E os melhores momentos, foram mesmo no televoto. Na arena previa-se um topo 5 para a Austrália, mas se um bottom 5 no televoto era um escândalo, quanto mais o último lugar na votação do público. A decepção veio com Portugal a receber apenas 18 pontos do televoto, mas perdoem-me, os 18 pontos dados a Espanha, fizeram-se soltar gargalhadas. Nunca fui fã da proposta espanhola e talvez já esperasse este resultado. Fiquei contente pelo resultado da República Checa, que viu o esforço de Mikolas resultar na melhor classificação do país. E a tão bela música de Itália a conquistar o quinto lugar atrás da Alemanha que mereceu o lugar em que ficou.

Espero que o Chipre continue com apostas arrojadas como "Fuego". O Festival vive de propostas como esta que os cipriotas nos presentearam este ano e quem sabe, não será o próximo país a quebrar o enguiço de estar há décadas sem vencer?

Desde o início que Portugal escolheu a sua música que estava confiante num Top 15, mas infelizmente e sem perceber muito bem porquê, ficámos no último lugar. Ainda assim, um obrigado à Cláudia e à Isaura por nos representarem tão bem e mostrarem à europa que em Portugal também há música moderna. 



A vencedora não podia ser outro país que não Israel. É inevitável o poder que a música tem na primeira audição. Netta sabe cativar o público e a delegação de Israel soube trabalhar o palco. Confesso que após escutar tantas vezes a música e aliado às quase inevitáveis questões políticas, comecei seriamente a duvidar que Israel conseguisse a quarta vitória na história da eurovisão. Perdoe-se aqueles que não percebem o conteúdo da música e que esta vitória sirva para mudar alguma coisa nas problemáticas tratadas na música.



Não podia acabar esta crónica sem dar o destaque merecido à representante do Reino Unido e à música número um no meu Top das canções deste ano. Num festival onde se celebra a diversidade, as comunidades e culturas dos diversos países, não se devia assistir ao triste protagonismo que um certo sujeito adquiriu ao invadir o palco na canção britânica. SuRie estava a ser irrepreensível desde o início da sua música e ficou visivelmente perturbada com o sucedido. 

"Spread your love, give all you got
Hold your head up, don't give up" 

Dificilmente haveria melhor letra para dar a volta à situação. E a melhor resposta veio da audiência, onde ninguém estava sentado e transmitiu a SuRie, a força necessária para catapultar a intérprete para uma das melhores atuações da noite. 


A próxima edição irá fazer correr muita tinta, seja realizado em Israel ou noutro país, mas que a Eurovisão nunca deixe de ser o Festival que apaixona milhões a cada ano.


Obrigado a todos os países que tentaram dar o seu melhor no festival, por se terem mantido fiéis às suas convicções e não mudarem a sua forma de pensar devido ao vencedor do ano anterior.

E sinceramente, quem é que nunca teve um feeling com um foco de pirotécnia?


Imagem: eurovision.tv/Vídeo: eurovision.tv, bbc

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